sábado, 14 de novembro de 2015

A Heresia Anti-litúrgica - Dom Prosper Guéranger, OSB

Dom Guéranger

A Heresia Anti-litúrgica
Servo de Deus Dom Prosper Louis Paschal Guéranger, OSB
Abade de Solesmes
Extraído de sua obra “Institutions Liturgiques”
(Cap. XIV – Da heresia anti-litúrgica e da Reforma Protestante do séc. XVI,
considerada em sua relação com a liturgia)
1840

Tradução do francês, com consultas ao inglês,
por Luís Augusto Rodrigues Domingues


Para se dar uma ideia dos estragos da seita anti-litúrgica, parece-nos necessário resumir a marcha dos pretensos reformadores do cristianismo ao longo de três séculos, e apresentar o conjunto de suas ações e de sua doutrina sobre a purificação do culto divino. Não há espetáculo mais instrutivo e mais apropriado para se fazer compreender as causas da rápida propagação do protestantismo. Certamente aí se verá a obra de uma sabedoria diabólica agindo e levando infalivelmente a vastos resultados.

I. A primeira característica da heresia anti-litúrgica é o ódio pela Tradição nas fórmulas do culto divino. Não se pode negar esta característica especial em todos os hereges, desde Vigilâncio até Calvino, e a razão é fácil de se explicar. Todo sectário, querendo introduzir uma nova doutrina, encontra-se inevitavelmente na presença da Liturgia, que é a tradição em seu mais alto poder, e não consegue encontrar repouso até ter feito calar esta voz, até estarem rasgadas as páginas que contêm a fé dos séculos passados. Com efeito, como se estabeleceram e se mantiveram em meio às massas o luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo? Tudo se consumou através da substituição dos livros e fórmulas antigos por livros e fórmulas novos. Nada mais incomodaria os novos doutores; poderiam pregar à vontade: a fé das gentes estava doravante sem defesas. Lutero cumpriu esta doutrina com uma sagacidade digna de nossos jansenistas, dado que no primeiro período de suas inovações, à época em que se via obrigado ainda a guardar uma parte das formas exteriores do culto latino, estabeleceu o seguinte regulamento para a Missa reformada:

“Nós aprovamos e conservamos os intróitos dos domingos e das Festas de Jesus Cristo, a saber, da Páscoa, de Pentecostes e de Natal. Nós preferiríamos de bom grado os salmos inteiros de que são tirados estes intróitos, como se fazia outrora, mas queremos bem nos conformar ao uso presente. Nem mesmo culpamos aqueles que desejam reter os intróitos dos Apóstolos, da Virgem e dos outros Santos,desde que estes três intróitos sejam tirados dos Salmos ou de outras passagens da Escritura”.

Ele tinha grande ódio dos cânticos sacros compostos pela própria Igreja para expressão pública da fé. Neles ele sentia pesado o vigor da Tradição que ele desejava banir. Reconhecendo à Igreja o direito de unir sua voz, nas santas assembleias, aos oráculos das Escrituras, ele se exporia a ouvir milhões de bocas a anatematizar os seus novos dogmas. Portanto, ódio a tudo que, na Liturgia, não era exclusivamente extraído das Sagradas Escrituras.

II. Com efeito, é o segundo princípio da seita anti-litúrgica a substituição das fórmulas de estilo eclesiástico pelas leituras da Sagrada Escritura. Ela aí encontra duas vantagens: a primeira, a de fazer calar a voz da Tradição que ela sempre teme; em seguida, um meio de propagar e de apoiar os seus dogmas, pela via da negação ou da afirmação. Pela via da negação, passando em silêncio, através de escolhas astutas, os textos que exprimem a doutrina oposta aos erros que eles querem fazer prevalecer; pela via da afirmação, pondo à luz passagens cortadas que só apresentam um lado da verdade, escondendo o outro dos olhos dos mais simples. Sabe-se, desde muitos séculos, que a preferência dada, por todos os hereges, às Sagradas Escrituras sobre as definições eclesiásticas, não tem outra razão que a facilidade que eles têm de fazer dizer pela Palavra de Deus tudo o que quiserem, apresentando-a segundo o que lhes convém. (...) Quanto aos protestantes, eles quase reduziram a Liturgia inteira à leitura da Escritura, acompanhada de discursos nos quais ela é interpretada pela razão. Quanto à escolha e à determinação dos livros canônicos, acabaram por cair no capricho do reformador, que, como último recurso, decide não somente o sentido da palavra de Deus, mas se esta palavra é verdadeira ou não. Assim, Martinho Lutero conclui, em seu sistema panteísta, que a inutilidade das obras e a suficiência da fé são dogmas a serem estabelecidos e a partir daí declara que a Carta de São Tiago é uma carta de palha, e não uma carta canônica, somente pelo fato de aí se ensinar a necessidade das obras para a salvação. Em todos os tempos e sob todas as formas, funcionará sempre do mesmo jeito: nada de fórmulas eclesiásticas, somente a Escritura, mas interpretada, escolhida e apresentada por aquele ou por aqueles que sabem tirar proveito para a inovação. A armadilha é perigosa para os simples, e somente depois de um longo tempo é que se percebe o engano em que se caiu, e que a palavra de Deus, esta espada de dois gumes, como diz o Apóstolo, abriu grandes feridas, pois foi manuseada pelos filhos da perdição.

III. O terceiro princípio dos hereges acerca da reforma da Liturgia é, digamos, depois de ter expulsado as fórmulas eclesiásticas e proclamado a necessidade absoluta de se empregar apenas as palavras da Escritura no serviço divino, visto que a Escritura nem sempre se dobra, como eles gostariam, a todas as suas vontades, fabricar e introduzir fórmulas novas, cheias de perfídia, pelas quais as pessoas sejam mais solidamente ainda acorrentadas ao erro, e todo o edifício da ímpia reforma venha a se consolidar pelos séculos.

IV. Alguém poderá se admirar da contradição que a heresia apresenta em suas obras, quando vier a saber que o quarto princípio, ou, se assim se desejar, a quarta necessidade imposta aos sectários pela própria natureza de seu estado de revolta, é uma habitual contradição frente aos seus próprios princípios. Deverá ser assim, para a confusão deles, naquele grande dia, que cedo ou tarde vem, quando Deus revelar a nudez deles à vista dos povos que foram por eles seduzidos, e também porque não é da natureza do homem ser coerente, consistente. Somente a verdade pode sê-lo. Por isso, todos os sectários, sem exceção, começam por reivindicar as prerrogativas da antiguidade. Eles querem abstrair o cristianismo de tudo o que o erro e as paixões dos homens nele misturaram de falso ou de indigno de Deus; tudo o que querem é o que é primitivo, e pretendem fazer voltar ao berço a instituição cristã. Para isto, eles podam, cortam e arrancam; tudo cai sob os seus golpes, e quando alguém esperar ver reaparecer em sua pureza primeva o culto divino, encontrar-se-á coberto de fórmulas novas que mal datam de ontem e que são incontestavelmente humanas, posto que aqueles que as redigiram ainda vivem. Toda seita sofreu esta necessidade; vimos isto nos Monofisitas, nos Nestorianos; reencontramos a mesma coisa em todos os ramos do protestantismo. Sua afetação ao pregar a antiguidade é a medida usada para fazer sumir diante de si todo o passado, e assim se põem diante do povo seduzido e lhe juram que tudo está muito bem, que o aparato papista supérfluo foi-se embora, que o culto divino retornou à sua santidade primitiva. Observemos ainda uma coisa característica na mudança da Liturgia por parte dos hereges. É que, em sua sanha inovadora, eles não se contentam em retirar as fórmulas de estilo eclesiástico, que eles menosprezam sob o nome de palavra humana, mas estendem sua rejeição até mesmo às leituras e orações que a Igreja tomou emprestadas da Escritura. Mudam-nas, substituem-nas. Não querem mais rezar com a Igreja. Excomungam, por isso, a si mesmos, e temem assim a menor parcela da ortodoxia que ordenou a escolha daquelas passagens.

V. Sendo a reforma da Liturgia realizada pelos sectários com o mesmo objetivo que a reforma do dogma, de que é consequência, segue-se que, assim como os protestantes se separaram da unidade para crer menos, eles são levados a subtrair do culto todas as cerimônias e todas as fórmulas que exprimem mistérios. Tacharam de superstição e de idolatria tudo o que não lhes pareceu puramente racional, restringindo assim as expressões da fé e obstruindo, pela dúvida e até pela negação, todas as vias que se abrem para o mundo sobrenatural. Por isso, nada mais de sacramentos, a não ser o Batismo, à espera do Socinianismo que o deixaria ao arbítrio de seus adeptos; nada de sacramentais, bênçãos, imagens, relíquias de santos, procissões, peregrinações, etc. Nada também de altar, mas simplesmente uma mesa; nada de sacrifício, como em toda religião, mas simplesmente uma ceia; nada de igreja, mas só um templo, como nos Gregos e Romanos; nada mais de arquitetura religiosa, dado que aí não há mistérios; nada de pintura ou escultura cristãs, dado que aí não há uma religião sensível; enfim, nada de poesia, num culto que não foi fecundado nem pelo amor e nem pela fé.

VI. A supressão das coisas misteriosas na Liturgia protestante produziu infalivelmente a extinção total do espírito de oração que se chama de Unção no Catolicismo. Um coração revoltado não tem amor, e um coração sem amor no máximo poderá gerar expressões de respeito ou de temor, com aquele frio orgulho farisaico. Tal é a Liturgia protestante. Sente-se que aquele que a reza aplaude a si mesmo por não ser contado no número dos cristãos papistas, que trazem Deus até a sua baixeza pela familiaridade de seu linguajar vulgar.

VII. Tratando nobremente com Deus, a liturgia protestante não tem necessidade de intermediários criados. Ela creria faltar com o respeito devido ao Ser soberano ao invocar a intercessão da Santa Virgem, a proteção dos santos. Ela exclui toda esta idolatria papista que roga à criatura aquilo que se deve rogar a Deus somente. Ela remove do calendário todos os nomes dos homens que a Igreja temerariamente inscreveu ao lado do nome de Deus. Ela tem, sobretudo, um horror àqueles monges e outros personagens dos tempos passados que aí se vê figurar ao lado dos veneráveis nomes dos apóstolos que Jesus Cristo escolheu, e pelos quais foi fundada a Igreja primitiva, a única que foi pura na fé e livre de toda superstição no culto e de todo relaxamento na moral.

VIII. Tendo, a reforma litúrgica, como um de seus principais fins a abolição dos atos e fórmulas místicas, segue-se necessariamente que seus autores devam reivindicar o uso da língua vulgar no serviço divino. Por isso, este é um dos pontos mais importantes aos olhos dos sectários. O culto não é algo secreto, dizem; é preciso que o povo entenda o que canta. O ódio à língua latina é inato ao coração de todos os inimigos de Roma. Nela eles vêem o elo entre os católicos de todo o universo, o arsenal da ortodoxia contra todas as sutilezas do espírito das seitas, a arma mais poderosa do Papado. O espírito da revolta que os leva a confiar a oração universal ao idioma de cada povo, de cada província, de cada século, já deu seus frutos, e os reformados estão diariamente a perceber que os povos católicos, não obstante suas orações latinas, têm mais gosto e cumprem com mais zelo os deveres do culto que os povos protestantes. A cada hora do dia, o serviço divino tem lugar nas igrejas católicas; o fiel que aí participa deixa sua língua mãe na porta; com exceção das horas de pregação, ele só ouve os misteriosos acentos [do latim], que até cessam de ressoar no momento mais solene, no Cânon da Missa; e, contudo, este mistério o encanta de tal forma que não inveja a sorte do protestante, embora o ouvido deste último nunca escute um som sem perceber seu significado. Enquanto o Templo Reformado reúne, com grande dificuldade, uma vez por semana, os cristãos puristas, a Igreja Papista vê incessantemente os seus numerosos altares cercados pelos seus filhos religiosos. Cada dia eles deixam seus trabalhos para ouvir as palavras misteriosas que devem ser de Deus, pois elas alimentam a fé e aliviam as dores. Admitamos: é um golpe de mestre do protestantismo o ter declarado guerra à língua sagrada; se conseguir êxito em a destruir, seu triunfo já estará bem avançado. Entregue aos gostos profanos, como uma virgem desonrada, a Liturgia, a partir deste momento, perdeu seu caráter sagrado, e o povo logo achará que não vale a pena deixar os trabalhos ou os prazeres para ir até aí e ouvir alguém falar como qualquer um fala na praça pública. (…)

IX – Tirando da Liturgia o mistério, que rebaixa a razão, o protestantismo tem o cuidado de não esquecer a consequência prática, ou seja, a libertação da fadiga e do desconforto que as práticas da Liturgia Papista impõem ao corpo. Primeiramente, nada mais de jejum e de abstinência; nada de genuflexão para rezar; para o ministro do templo, nada mais de ofícios diários a serem cumpridos, nem mesmo preces canônicas para se recitar em nome da Igreja. Tal é uma das formas principais da grande emancipação protestante: diminuir a quantidade de orações públicas e particulares. O decorrer dos fatos tem mostrado rapidamente que a fé e a caridade, que se alimentam da oração, foram sendo extintas na Reforma, enquanto elas não cessam, entre os católicos, de alimentar todos os atos de devoção a Deus e aos homens, fecundados que são pelas fontes inefáveis da oração litúrgica, realizada pelo clero secular ou regular, ao qual se une a comunidade dos fieis.

X – Como falta ao protestantismo uma regra para discernir entre as instituições papistas quais as que poderiam ser as mais hostis aos seus princípios, foi-lhe preciso cavar até os fundamentos do edifício católico, e encontrar a pedra fundamental que sustenta tudo. Seu instinto fez descobrir tudo que segue este dogma que é inconciliável com toda inovação: o poder Papal. Daí Lutero ter escrito em seu estandarte: “Ódio a Roma e às suas leis”. Ele não fazia nada mais que proclamar uma vez por todas o grande princípio de todos os ramos da seita anti-litúrgica. Daqui vem a necessidade de abrogar em massa o culto e as cerimônias, como idolatria de Roma; a língua latina, o ofício divino, o calendário, o breviário, todas as abominações da grande Prostituta da Babilônia. O Romano Pontífice oprime a razão pelos seus dogmas e os sentidos pelas suas práticas rituais; é preciso proclamar que os dogmas não passam de blasfêmia e erro, e suas observâncias litúrgicas, um meio de assegurar mais fortemente uma dominação usurpada e tirânica. Eis por que, em suas ladainhas emancipadas, a Igreja luterana continua a cantar inocentemente: “Do furor homicida, da calúnia, da ira e da ferocidade do Turco e do Papa, livrai-nos, Senhor”. Cabe aqui recordar as admiráveis considerações de Joseph de Maistre, em seu livro “Sobre o Papa”, onde ele mostra, com tamanha sagacidade e profundidade, que, não obstante as dissonâncias que isolam as diversas seitas separadas umas das outras, há uma característica que reúne todas elas: a de serem não-Romanas. Imaginai uma inovação qualquer, seja em matéria de dogma, seja em matéria de disciplina, e vereis se é possível empreendê-la sem incorrer, queira ou não queira, no apelido de não-Romana, ou se quiserdes, de meio Romana, se falta audácia. Resta saber que tipo de descanso poderá encontrar um católico seja na primeira ou na segunda das duas situações.

XI – A heresia anti-litúrgica, para estabelecer para sempre o seu reinado, tem necessidade de destruir de fato e de princípio todo o sacerdócio no cristianismo, pois ela sente que, onde há um pontífice, há um altar, e aí onde há um altar, há um sacrifício e, portanto, um cerimonial misterioso. Depois de ter abolido a qualidade de Sumo Pontífice, é preciso aniquilar o caráter episcopal, donde emana a mística imposição das mãos que perpetua a hierarquia sagrada. Resulta daí um vasto presbiterianismo, que é exatamente a consequência imediata da supressão do soberano Pontificado. Daí, não há mais um padrepropriamente dito. Como a simples eleição, sem uma consagração, fará dele um homem sagrado? A reforma de Lutero e de Calvino não conhecerá outra coisa senão Ministros de Deus, ou dos homens, como se queira. Mas é impossível ficar só nisso. Escolhido e empossado por leigos, portando no templo uma toga de alguma bastarda magistratura, o ministro não passa de um leigo revestido de funções acidentais; não há nada mais que leigos no protestantismo. E assim deve ser, posto que não há mais Liturgia. Bem como não há mais Liturgia, posto que não há nada mais que leigos.

XII – Por fim, no último degrau de embrutecimento, não existindo mais o sacerdócio, dado que a hierarquia está morta, o príncipe, única autoridade possível entre leigos, proclamar-se-á chefe da Religião, e se verá os mais orgulhosos reformadores, depois de ter lançado fora o jugo espiritual de Roma, reconhecerem o soberano temporal como sumo pontífice, e colocarem o poder sobre a Liturgia entre as atribuições de direito majestático. Não mais haverá dogma, moral, sacramentos, culto e cristianismo, a não ser que agrade ao príncipe, dado que o poder absoluto lhe foi entregue sobre a Liturgia, pela qual todas aquelas coisas têm sua expressão e sua aplicação na comunidade de fieis. Tal é, portanto, o axioma fundamental da Reforma, na prática e nos escritos dos doutores protestantes. Este último traço completará o quadro, e permitirá ao próprio leitor julgar sobre a natureza desta pretensa libertação, operada com tanta violência no que tange ao papado, para estabelecer, em seguida, porém necessariamente, uma destrutiva dominação sobre a própria natureza do cristianismo. É verdade que, no começo, a seita anti-litúrgica não tinha o costume de bajular os poderosos: albigenses, valdenses, wycliffitas, hussitas, todos ensinaram que era preciso resistir e mesmo atacar todos os príncipes e magistrados que se encontrassem em estado de pecado, pretendendo que um príncipe perdia o direito no momento em que não estivesse mais na graça de Deus. A razão disso é que os sectários temiam a espada dos príncipes católicos, bispos de fora, tendo tudo a ganhar minando sua autoridade. Mas a partir do momento em que os soberanos, associados à revolta contra a Igreja, quiseram fazer da religião uma coisa nacional, um meio de governo, a Liturgia, bem como o dogma, reduzida aos limites de um país, ficou submetida naturalmente à mais alta autoridade do país, e os reformadores não tinham como deixar de prestar um vivo reconhecimento àqueles que davam, assim, o auxílio de um braço poderoso para estabelecer e conservar suas teorias. É bem verdade que aí há toda uma apostasia nesta preferência dada ao temporal sobre o espiritual, em matéria de religião; mas agem assim pela necessidade de se manter. Precisam não só ser consistentes, mas sobreviver. É por isso que Lutero, que se separou brilhantemente do Pontífice Romano, este considerado como fautor de todas as abominações da Babilônia, não teve vergonha de si mesmo ao declarar teologicamente legítimo um duplo casamento para o landgrave de Hesse, e é por isso também que o Abade Gregório encontrou em seus princípios o meio de associar, de uma vez, a Convenção inteira no voto de execução contra Luís XVI, e de se fazer o defensor de Luís XIV e de José II contra os pontífices romanos.

Tais são as principais máximas da seita anti-litúrgica. De modo algum estão exageradas. Apenas enfatizamos a doutrina centenas de vezes professada nos escritos de Lutero, de Calvino, dos Centuriadores de Magdeburgo, de Hospiniano, de Kemnitz, etc. Estes livros são fáceis de consultar, ou melhor, a obra que resultou daí está sob os olhos de todo o mundo. Cremos ter sido útil pôr à luz estas principais características. Sempre é bom ter conhecimento acerca do que é errado. O conhecimento prático e direto é, às vezes, menos vantajoso e menos fácil.

Cabe aos pensadores católicos tirar a conclusão.

Dom Guéranger
***

O texto francês utilizado para a tradução esteve disponível em:
http://salve-regina.nuxit.net/Liturgie/Heresie_antiliturgiste.htm
Ele confere com o original do autor, disponível em:
http://books.google.com/books?id=VV9MpxP3MI8C (pág. 414-425)
O texto inglês utilizado como fonte secundária está disponível em:
http://www.catholicapologetics.info/modernproblems/newmass/antigy.htm

Fonte: Salvem a Liturgia

domingo, 1 de novembro de 2015

A visibillidade da Igreja - Padre Maurílio Teixeira Penido


Por três vezes a Encíclica se refere à visibilidade da Igreja. Logo ao princípio, explicando a metáfora “Corpo”, ensina que a Igreja é por essência visível e condena os erros do protestantismo antigo. (E. 34, 3 e 25). Mais adiante, ao tratar da “Cabeça” do corpo eclesiástico inculca que, sem prejuízo do governo invisível de Cristo, é a Igreja governada visivelmente pelo Papa e pelos Bispos (E. 43, 37). Enfim, aclarando o qualificativo “místico”, completa a doutrina sobre a essência da Igreja e de novo se refere à visibilidade, condenando desta feita a oposição moderna entre a Igreja da caridade (invisível e divina) e a Igreja jurídica (visível e humana) (E. 54, 30).

É de notar que a nossa Encíclica, ao fixar essa verdade de fé, cita dois trechos da Encíclica de Leão XIII Satis cognitum1 e por duas outras vezes se refere ao mesmo documento. Procuremos pois explicar Pio por Leão; venha o “Lumen in cœlo” aclarar a doutrina do “Pastor angelicus”. Leão XIII serve-se de dois pontos de referência para esclarecer a doutrina da Igreja: a nossa pessoa humana; a pessoa divina de Cristo.

Dois princípios ou elementos constituem a pessoa humana; um, interno, espiritual, invisível: a alma; o outro externo, material, visível: o corpo. Assim, se atentarmos no fim supremo que colima e nas causas mais íntimas de sua santidade, será a Igreja de certo espiritual; mas se considerarmos ao contrário os membros que a compõem e os meios que nos encaminham até os dons espirituais, ela será externa e necessariamente invisível. Ora, assim como é impossível reduzir o homem apenas ao corpo ou apenas à alma, antes a pessoa humana requer, para ser constituída, a estreita conjunção de ambos; assim também é essencial à constituição da Igreja unirem-se estreitamente o elemento espiritual e o material, porquanto ela nem é um cadáver nem um puro espírito, senão o Corpo de Cristo, dotado de vida sobrenatural. Prosseguindo, Leão XIII mostra como na contextura da Igreja o elemento interno, invisível e o externo, visível, se encontram entremeados, sem que seja possível separá-los.

A missão espiritual de ensinar, os Apóstolos só a puderam exercer por meio das palavras e atos que os sentidos percebiam. A voz exterior, escutada pelo ouvido, gerou a fé no íntimo das almas2.Por sua vez a fé, imanente ao espírito, deve transparecer pela profissão externa3. Nada mais interior ao homem que a graça, fonte de santidade; todavia, os meios normais e principais pelos quais ela se comunica são exteriores, a saber os sacramentos administrados segundo determinados ritos, por ministros adrede escolhidos. Enfim, Jesus Cristo encarregou os Apóstolos e seus sucessores perpétuos de instruir e reger os povos; a esses pediu que lhes acolhessem os ensinamentos e lhes obedecessem ao governo; nunca esses laços mútuos de direitos e de deveres se poderiam ter formado e mantido sem o recurso aos sentidos, intérpretes e mensageiros da realidade. Motivo pelo qual as Sagradas Letras tão freqüentemente rezam ser a Igreja um Corpo, o Corpo de Cristo4.

Por ser Corpo, ela é visível; por ser Corpo de Cristo, ela é viva, atuosa, vegeta. Guarda-a e sustenta-a Jesus Cristo pela virtude que lhe influi; bem assim nutre e faz frutificar as vides da cepa que unidas lhe permanecem. Como nos seres animados, o princípio da vida, invisível e escondido, se traduz e manifesta no exterior pelo movimento e pela ação dos membros, assim na Igreja o princípio de vida sobrenatural se patenteia pelos atos que ele dele dimanam.

Essa última frase de Leão XIII põe a descoberto o âmago da questão: está em jogo a visibilidade da Igreja precisamente como organismo sobrenatural. Que ela seja visível, nos homens de carne e osso que a integram, é por demais evidente para ser negado; também é visível a existência dum corpo social dotado de instituições jurídicas, morais, litúrgicas, denominado “Igreja Católica”. O que está em jogo é a visibilidade da Igreja enquanto divina, instituição sobrenatural fundada por Cristo. Afirma a doutrina católica que essa visibilidade é essencial à Igreja, lhe é nativa, pois pertence-lhe à própria constituição5.Nossa alma enquanto espírito é invisível, todavia enquanto encarnada, ela se manifesta, transparece, se torna visível através das atividades do corpo por ela promovidas. Não só distinguimos o corpo animado do corpo inanimado ou cadáver; mas ainda quantos pensamentos, por vezes mui recônditos, percebemos através de simples atitudes corporais? Um sorriso, um olhar, um bater de pálpebras, podem ser mais reveladores do que um fluxo de palavras. Semelhantemente, o aspecto sobrenatural da Igreja é, em si, de todo invisível, porque “a Deus nunca ninguém o viu” (Jo, I, 18). Sem embargo, esse sobrenatural não reside, incomunicável, num santuário misterioso e inatingível; ele anima as atividades visíveis da Igreja. O poder de santificar, espiritual e invisível, manifesta-se exteriormente pelos ritos sacramentais e pelo culto; o poder espiritual e invisível de iluminar as inteligências com a doutrina revela-se extremamente pela pregação; o poder espiritual e invisível de reger as almas patenteia-se externamente pelas instituições jurídico-sociais. Desde os mais primitivos tempos, pregadores e apologetas apontaram a constância dos mártires, a pureza das virgens, a caridade dos fiéis, quais sinais visíveis da seiva invisível que animava o Corpo Místico; e o Concílio Vaticano, estatuindo que a Igreja é um milagre permanente, ensinou que a vida visível da Igreja manifesta-se como realidade divina, já que o milagre mostra “como com o dedo de Deus a missão sobrenatural e o sobrenatural múnus da Igreja” (E, 41, 34).

O dogma da visibilidade essencial da Igreja6 não significa — como caluniam os protestantes — que para os católicos o principal seja a parte exterior, por exemplo: a estrutura jurídica. Afirmar a visibilidade essencial do homem não é manter que o principal no homem seja o corpo. Segundo a doutrina católica o elemento espiritual é primário na Igreja, como é primário no homem7; no entanto, como a alma, invisível em si, se revela através do corpo que ela organiza, faz viver, crescer, e multiplicar-se, assim o sobrenatural, invisível em si, se revela na Igreja pelas manifestações da vida cristã que da graça dimanam e se expressam nas atividades do corpo eclesiástico. Aliás, tendo Deus decretado salvarem-se os homens pela Igreja, tornava-se imprescindível que eles pudessem discernir, com certeza, onde está a Igreja precisamente enquanto meio de salvação.

À pessoa humana como termo de comparação adita Leão XIII, na citada Encíclica, a pessoa de Cristo subsistindo em duas naturezas: a divina invisível, a humana visível8. Símile mais adaptado, por ser Cristo exemplar da Igreja (E. 47, 7; 49, 23; 54, 25). Assim como — ensina Leão XIII — Cristo não é todo, se nele só se considera a natureza humana e visível (segundo queriam os fotinianos e nestorianos) ou só a natureza divina (como o queriam os monofisitas), antes Cristo é uno, constituído por duas naturezas e subsistindo em duas naturezas, uma visível e outra invisível; assim também a verdadeira Igreja não é o Corpo Místico de Cristo, senão porque aquilo que nela há de visível deriva a sua natureza própria, a sua força e a sua vida dos dons sobrenaturais9. Leão XIII condena, em conseqüência, tanto o erro do protestantismo, que faz da Igreja evanescer num mistério inacessível; quanto o erro do naturalismo, que na Igreja só percebe o lado exterior, louvando-lhe embora a força de coesão social ou a virtude educativa. “Laboram em profundo e pernicioso erro, sentencia o Pontífice, os que fantasiam uma Igreja abscôndita e irreconhecível, como também os que a consideram apenas qual instituição humana, regida por forte disciplina e provida de ritos externos, não porém enriquecida pelo constante afluxo de graça divina, nem dotada de sinais, atestando, aberta e cotidianamente, que a Igreja haure a sua vida do mesmo Deus”10.

Novo erro seria contudo imaginar que esses “sinais”, embora de meridiana clareza, suprimam a fé. Absolutamente não. “Creio na Santa Igreja Católica”, professamos no Símbolo. A Igreja é um mistério de fé. Os sinais evidenciam tão-somente que o mistério da Igreja merece certamente a nossa fé; são “notas de credibilidade”, dizem os teólogos, entendendo por aí que aquilo que da Igreja vemos, torna evidentemente crível o que dela não vemos. A evidência vem pois desabrochar num ato de fé. A vida sobrenatural que, interna e abscôndita, anima a Igreja revela-se no exterior apenas o bastante para que todo homem, procurando com intenção reta, veja claramente que ali existe algo de milagroso. Constatar a intervenção divina, entretanto, não é ainda entender o sobrenatural; devemos aceitá-lo, crê-lo. A visibilidade essencial da Igreja não suprime a fé, justifica-a, fundamentando-a os israelitas de vontade reta, ao presenciarem os milagres de Jesus, exclamava: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou seu povo” (Lc. 7, 16). Mas, se o milagre tornava crível a afirmação de Jesus que Ele era Filho de Deus, em compensação não fazia de modo algum penetrar os arcanos dessa filiação divina. Por isso mesmo, era ela crível: objeto de fé e não de ciência. O mesmo, proporcionalmente, pode-se dizer da Igreja, prolongamento de Cristo. Na bela expressão de um grande eclesiólogo: “A Igreja é a morada viva, é o Corpo quase diáfano de um Deus escondido e incompreensível”11.

Como do oceano apenas avistamos a superfície que os ventos agitam, e a nós escapam as profundezas abismais que as ondas recobrem, assim na Igreja o mistério transparecendo ao exterior é pouca coisa, pouquíssima mesmo, em face das riquezas incompreensíveis de Cristo que se recatam no íntimo, e que só a fé atinge obscuramente. Reflitamos nos prodígios que a cada instante opera o Espírito Santo — Alma incriada da Igreja — nos invioláveis refolhos dos corações.

(Cap. de O Corpo Místico. Publicado originalmente como artigo na Revista Eclesiástica Brasileira)


1.Sobre a unidade da Igreja, em data de 29 de junho de 1895. 
2.Rom 10, 17: “A fé vem da pregação e a pregação da palavra de Cristo”. 
3.Rom 10, 10: “É necessário crer de coração, para obter a justiça e confessar pela boca para obter a salvação”. 
4.A transcendência, a irredutível originalidade da Igreja tornam impossível o descreve-la por um só conceito, menos ainda por uma só metáfora. Bem mais, a pobreza de nossas comparações humanas obrigou os teólogos a darem sentidos diversos à mesma imagem. O vocábulo “Corpo”, por exemplo, não reveste o mesmo significado segundo falamos no “Corpo da Igreja” ou no “Corpo Místico de Cristo”. Donde surge não pequena confusão entre os leigos. Fixemos pois alguns pontos de terminologia. Na Igreja distinguimos em primeiro lugar um elemento interno que denominamos Alma, pelo qual entendemos os princípios sobrenaturais mercê dos quais a Igreja vive e atua. Distinguimos em seguida um elemento externo que, denominamos Corpo e que consiste na profissão externa da fé, na recepção dos sacramentos, no governo eclesiástico, etc. como da conjunção do corpo e da alma resulta uma só pessoa humana, assim a união do elemento interno e do externo constitui uma só Igreja militante. A Alma criada é efeito e fruto da alma incriada, pois a fonte da graça é o Espírito Santo. — Feita a distinção entre a Alma e o Corpo da Igreja, podemos dizer, por exemplo, que o catecúmeno fervoroso (isto é, que tem fé e amor de Deus) pertence já à Alma da Igreja, se bem que só pelo batismo será posteriormente agregado ao Corpo da Igreja. (Consultar sobre essas distinções o Catecismo Católico, do Cardeal Gásparri, questões 134, 135, 162). Entende-se facilmente, agora, que a expressão “Corpo da Igreja” designa o elemento visível, externo, em contraposição à Alma, isto é, ao elemento invisível e interno; enquanto o “Corpo Místico de Cristo” designa o conjunto; Corpo e Alma da Igreja, em contraposição à Cabeça que é Cristo. No primeiro caso opõe-se o Corpo à Alma; no segundo, o Corpo à Cabeça. 
5.Por esse motivo, a Encíclica após haver afirmado que a Igreja é o Corpo, logo “algo de concreto e visível” (E 26, 48). — o que, em rigor dos termos, poder-se-ia entender da visibilidade “material” — volta à carga, e precisa que a Igreja é visível como Corpo Místico de Cristo (E 48, 31 seg.), o que só se pode entender da visibilidade “formal”. 
6.A heresia da invisibilidade da Igreja data do século IV, quando os donatistas ensinavam que a Igreja é a sociedade dos justos tão-somente; foi repristinada no século XV por Wiclett e Huss, pretendendo que a Igreja é a assembléia dos predestinados. (Dezinger 629, 631, 632). Como só Deus sabe quem é justo, quem é predestinado, segue-se que a verdadeira Igreja só é visível aos olhos de Deus. Assim o ensinaram abertamente Lutero e Calvino, pelo menos quando polemizavam com os católicos que os apertavam com a importuna questão? “Se vossa igreja protestante é verdadeira, onde estava há 1500 anos? Precisou Cristo esperar 16 séculos para que aparecesse a Igreja verdadeira?” retrucavam os heresiarcas, que só Deus conhece a verdadeira Igreja. Porém, quando polemizavam com os protestantes dissidentes, encareciam eles a visibilidade das igrejas luterana e calvinista. Erro afim, foi, na Idade Média, o dos fraticelos, distinguindo duas igrejas, uma carnal, outra espiritual. (Dezinger 485). Para os protestantes “liberais” e os “modernistas” só importa o “sentimento religioso” do qual todo o resto é apenas cristalização, corporificação — inevitável, sem dúvida, porém de valor secundário e cuja instituição não remonta a Cristo. (Dezinger, 2091). 
7.Que o elemento invisível seja o principal na Igreja, depreende-se da doutrina de nossa Encíclica, segundo a qual a Igreja nasceu no Calvário, do lado traspassado de Cristo (E, 39, 14); aparece claramente, então, que a Igreja é antes de tudo caridade, graça, vida espiritual profunda. 
8.É esse um dos trechos da Encíclica Satis cognitum citado por nosso texto. (E, 54, 25 seg.). 
9.Mais uma vez desponta a verdade básica que já procuramos aclarar: a Igreja prolongamento de Cristo. É por ser-lhe o Exemplar, a um tempo Deus e homem, invisível e visível, que na Igreja se entretecem o divino e o humano, o invisível e o visível: a palavra, humana e visível, portador da graça invisível; os pastores, humanos e visíveis, revestidos de autoridade invisível e divina. Como a humanidade de Cristo não é coisa acidental, assim não o é o lado humano e visível da Igreja. Um Chefe ou Cabeça, divino-humano, invisível-visível, devia ter um prolongamento ou corpo divino-humano, visível-invisível. 
10.Alude Leão XIII, aos sinais ou notas que permitem discernir a verdadeira Igreja: unidade, santidade, catolicidade, apostolicidade. 
11.Charles Journet, L’Église Mystérieuse et Visible (Nova et veter, Revue catholique pour la Suisse Romande, 1940, p. 377).

Fonte: Permanência