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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Consagração do gênero humano à Maria, mãe de todos os homens - Garrigou-Lagrange


A gravidade dos acontecimentos atuais, em particular os que acabam de ocorrer na Espanha, mostram que as almas fiéis devem, cada vez mais, recorrer a Deus pelos grandes mediadores que Ele nos deu por causa de nossa fraqueza.

Estes acontecimentos e sua atrocidade mostram de modo singularmente marcante o que acontece com os homens quando querem absolutamente viver sem Deus, quando querem organizar suas vidas sem Ele, longe Dele, contra Ele. Quando, ao invés de crer em Deus, de esperar em Deus, de amá-lo acima de tudo e de amar ao próximo Nele, queremos crer na humanidade, esperar nela, amá-la de modo exclusivamente terrestre, a humanidade não tarda a se apresentar a nós com suas falhas profundas, com suas feridas abertas: o orgulho da vida, a concupiscência da carne e dos olhos, e todas as brutalidades que a elas se seguem. Quando, ao invés de colocar seu fim último em Deus, que pode ser simultaneamente possuído por todos, como nós todos podemos possuir, sem nos prejudicar, a mesma verdade e a mesma virtude, coloca-se o fim último nos bens terrestres, não se tarda a perceber que estes bens nos dividem profundamente, pois a mesma casa e a mesma terra não podem pertencer simultaneamente e integralmente a vários. Quanto mais a vida se torna material, mais os apetites inferiores se inflamam sem qualquer subordinação a um amor superior, mais os conflitos entre os indivíduos, classes e povos se exasperam; finalmente, a terra se tornará um verdadeiro inferno.

O Senhor mostra assim aos homens o que eles podem sem Ele. Tudo isso constitui um singular comentário das palavras do Salvador: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5); “Quem não é comigo, é contra mim; e quem não junta comigo, desperdiça” (Mt 12, 30); “Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33); “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente vigia a sentinela.” (Mt 126, 1)

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O perigo mais grave da hora atual é o comunismo internacional, de origem materialista, que nega a existência de Deus e a vida futura, que destrói a dignidade da pessoa humana, da família e da pátria. Os últimos acontecimentos de Espanha mostram como ele procura conquistar a Europa, e como ele quer preparar uma revolução mundial que será, como julgam, o fim do cristianismo e de toda religião, conforme o programa da liga dos “sem Deus”.

A fim de remediar tão grande mal, os melhores, os mais zelosos entre os católicos, nos povos divididos por tantos conflitos, sentem a necessidade de uma oração comum que reúna perante Deus as almas profundamente cristãs das diversas nações, para obter que o reino de Deus e de Cristo se estabeleça progressivamente no lugar do reino do orgulho e da concupiscência.

Nesta intenção, todos os dias se oferecem missas1 e a adoração do Santo Sacramento se difundiu em diversos países de modo tão largo e veloz que devemos ver nisso o fruto de uma grande graça de Deus2

Não se obterá a pacificação exterior do mundo senão pela pacificação interior das almas, reconduzindo-as a Deus, trabalhando para estabelecer nelas o reino de Cristo no mais íntimo de suas inteligências, de seus corações, de sua vontade ativa.

Para que as almas desviadas retornem Àquele que, único, pode salvá-las, importa recorrer à intercessão de Maria, medianeira universal e mãe de todos os homens. Dos pecadores que parecem ter se perdido para sempre, diz-se que é necessário confiá-los à Maria. Assim também com os povos cristãos que se desviam.

Toda a influência da bem-aventurada Virgem tem por fim conduzir as almas a seu Filho, como toda influência do Cristo, mediador universal, tem por fim conduzi-las a seu Pai.

A oração de Maria é universal no mais alto sentido da palavra. Como mostram suas ladainhas, recitadas por toda Igreja, no céu ela pede por nós, pelos pecadores dos quais ela é o refúgio, pelos aflitos dos quais é consolação, pelos fracos dos quais é socorro, pelas virgens que preserva, pelos apóstolos que ilumina, pelos mártires que sustenta. Ela intercede não apenas pelas almas individuais da terra e do purgatório, mas também pelas famílias e por todos os povos que devem viver sob a luz do Evangelho, sob a influência da Igreja.

Quando ainda estava na terra, a beatíssima Virgem Maria, aos pés da Cruz, oferecendo seu Filho por nossa salvação e unindo-se de modo muito íntimo ao seu sacrifício, nos mereceu, no sentido largo da palavra, tudo o que o próprio Cristo nos mereceu em sentido estrito. Após a morte e a ressurreição do Salvador, ela intercedia para que, pelos apóstolos, o reino de Deus e de Cristo Jesus chegasse até as extremidades do mundo. Ela sustentava sobrenaturalmente os apóstolos em seus trabalhos e em suas lutas e lhes obtinha graças elevadíssimas de luz, de amor e força. Seu zelo puríssimo sustentava o deles.

Desde que Maria foi assunta ao céu, sua intercessão não é senão mais poderosa, posto que mais iluminada, e procede de um amor de Deus e das almas que nada pode atenuar ou interromper, ainda que por um único instante.

O amor misericordioso de Maria por todos os homens ultrapassa o de todos os santos reunidos, assim como o poder de sua intercessão sobre o Coração de seu Filho.

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É por isto que, de diversas partes, muitas almas espirituais, considerando os grandes perigos da hora presente, sentem a necessidade de recorrer, pela intercessão de Maria medianeira, ao Amor redentor de Cristo.

Em diversas partes, particularmente nos conventos de fervorosa vida contemplativa, conserva-se a memória de que muitos bispos franceses reunidos em Lourdes, no segundo Congresso mariano nacional, em 27 de julho de 1929, expressaram ao Soberano Pontífice o desejo de uma consagração do gênero humano ao Coração imaculado de Maria. E também que o Pe. Deschamps, S. J., em 1900, o cardeal Ricard, arcebispo de Paris, em 1906, o Pe. Le Doré, superior geral dos Eudistas, em 1908 e 1912, o Pe. Lintelo, S. J., em 1914, iniciaram petições ao Soberano Pontífice para obter a consagração universal do gênero humano ao Coração imaculado e misericordioso de Maria.

Por um ato coletivo, os bispos de França, no início da guerra, dezembro de 1914, consagraram a França à Maria. O cardeal Mercier, em 1915, na sua carta pastoral sobre Maria medianeira, saúda Maria, Mãe do gênero humano, como soberana do mundo. O Rvdo. P. Lucas, novo superior geral dos Eudistas e a Legião do Coração imaculado de Maria, aprovada por numerosos bispos, conseguiram em poucos meses mais de 300.000 assinaturas para apressar, por esta consagração, a paz de Cristo no reino de Cristo.

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A força da qual temos necessidade, na confusão em que se encontra o mundo na hora atual, a intercessão de Maria, Mãe do gênero humano, nos conseguirá do Salvador.

Sua intercessão é poderosíssima contra o espírito de divisão que lança indivíduos, classes e povos uns contra os outros.

A Virgem dulcíssima é terrível contra o demônio e, no dizer do bem-aventurado Grignion de Montfort, aquele que é o orgulho personificado mais sofre por ser vencido pela humildade de Maria, do que por ser imediatamente esmagado pela Onipotência divina.

Se um pacto formal e plenamente consentido com o demônio pode trazer enormes conseqüências na vida de uma alma e mesmo perdê-la para sempre, que efeito espiritual não produzirá uma consagração a Maria, feita com verdadeiro espírito de fé e renovada a cada dia com sempre crescente fidelidade?

É preciso lembrar que, em dezembro de 1836, o venerável cura da igreja de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris, ao celebrar a missa no altar da santíssima virgem, o coração moído por pensamentos sobre a inutilidade de seu ministério, escutou estas palavra: “Consagra tua paróquia ao santíssimo e imaculado Coração de Maria”. Feita a consagração, a paróquia transformou-se.

No mesmo espírito, bispos italianos pediram a Leão XIII a autorização de consagrar suas dioceses ao Coração puríssimo de Maria e, na França, o cardeal Couillé, Mons. Touchet e Mons. Dadolle proclamaram Maria Rainha do universo. As ladainhas do Loreto, que há muito a invocam como Rainha dos anjos e de todos os santos, contém hoje, desde a última guerra, a invocação: Regina pacis, ora pro nobis.

A súplica de Maria por nós é a de uma Mãe sapientíssima, amorosíssima, fortíssima, que vela incessantemente sobre todos seus filhos, sobre todos os homens chamados a receber os frutos da Redenção.

Quem faz a experiência de consagrar todos os dias a Maria todos seus trabalhos, obras espirituais e empresas, encontra fé e confiança quando tudo parece perdido.

É o que o bem-aventurado Grignion de Montfort mostra admiravelmente no seu Tratado da verdadeira devoção à Santa Virgem, e no resumo que dele sob o título: O Segredo de Maria.

Ora, se a consagração individual de uma alma a Maria lhe obtém diariamente tantas graças de luz, direção, amor e força; se Maria nos faz assim entrar cada dia mais profundamente no mistério da Comunhão dos santos, quais não seriam os frutos de uma consagração do gênero humano feito ao Salvador pela própria Maria, à rogos do Pai comum dos fiéis, o Pastor supremo? Qual não seria o efeito de uma consagração assim feita, sobretudo se os fiéis de diferentes povos se unissem e vivessem dela, numa prece fervorosa, renovada freqüentemente durante a missa?

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Como escrevia a madre Maria de Jesus, fundadora da Sociedades das Filhas do Coração de Jesus3: “Posto que o inferno quer banir Jesus Cristo e sua Igreja das almas e das sociedades, é mais que nunca hora de elevar as mãos suplicantes à incomparável Virgem, por quem o Pai Celeste deu Jesus Cristo ao mundo; a fim de que esta doce Mãe do Salvador, devolvendo, por assim dizer, Jesus às almas, lhes devolva a vida perdida; que esta poderosa Protetora da Igreja, “terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 3), triunfe sobre seus inimigos e que esta gloriosa Rainha da hierarquia faça cair sobre todos os membros do Clero católico bênçãos tais do Coração de Jesus que lhes conservem sua coragem e lhes aperfeiçoem no meio das tormentas de nossa triste época, e lhes façam brilhar como diamantes sem mancha sobre a admirável túnica da Igreja.”

A mesma serva de Deus acrescenta um pouco mais adiante4 estas palavras que tanto convém ao nosso tempo:

“Não vivemos por nós, é preciso tudo enxergar nos desígnios de Deus; nossas dores atuais – ainda que cheguem ao cúmulo e que nos sacrifique nesse desastre – conquistam e preparam os triunfos futuros e certos da Igreja... A Igreja segue assim de luta em luta, de vitória em vitória, uma sucedendo a outra até a Eternidade, que será o triunfo definitivo.

“Foi preciso que Jesus sofresse e que assim entrasse na “sua glória” (Lc 24, 26); é preciso que a Igreja e as almas perfaçam o mesmo caminho. A Igreja não dura apenas um dia; quando os mártires caiam como flocos de neve no inverno, não se podia pensar que tudo estava perdido? Não, o sangue deles preparava a vitória que estava por vir.

“Como uma Esposa que se prepara para seu Esposo, a Igreja marcha através dos séculos rumo à perfeição do céu; ela se embeleza mais e mais; ela está pronta, mas continuará se embelezando até o dia das núpcias eternas.

“Não temais, pois, pelos perigos da Igreja: não é a Igreja que está em perigo; ela tem a palavra de Jesus Cristo e nada a abalará... As portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

*

No difícil período que atravessamos, a Igreja tem necessidade de almas muito generosas, verdadeiramente santas. É Maria, Mãe da divina graça, Mãe puríssima, Virgem prudentíssima e forte, que as formará. Por toda parte, o Senhor sugere a almas interiores uma oração cuja forma varia, mas cuja substância é a mesma: “Neste tempo em que um espírito de orgulho inflado até o ateísmo procura se espalhar por todos os povos, Senhor, sede como a alma de minha alma, dai-me uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e de vossos santos aniquilamentos, remédio contra todo orgulho. Dai-me o desejo sincero de participar, na medida desejada para mim pela Providência, nesses salutares aniquilamentos, e fazei-me encontrar neste desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria que é como o prelúdio ou o gosto das alegrias da eternidade.”

Para ingressar assim na profundidade do mistério da Redenção, é preciso que Maria, que nele ingressou mais que qualquer outra criatura, nos instrua silenciosamente aos pés da cruz e nos faça descobrir na letra do Evangelho o espírito do qual ela mesmo tão profundamente viveu.

*

Que a Mãe do Salvador digne-se, por sua oração, colocar as almas fiéis de diferentes povos sob a luz desta palavra do Cristo: “Eu dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um, como também nós somos um” (Jo 17, 22).

“É da ordem das coisas, escrevia o cardeal Mercier, que as crianças exprimam a seu Pai seus mais íntimos desejos.” Podemos esperar que um dia, quando a hora providencial chegar, S. S. Pio XI, chamado o Papa das Missões, tomando em consideração os votos de bispos e fiéis, consagrará o gênero humano ao Coração imaculado e misericordioso de Maria, para que ela mesma, mais instantemente, peça por nos a seu Filho. Isto seria uma nova afirmação da mediação universal da Santíssima Virgem.

A intercessão mais poderosa ao Coração de Jesus é a da santa Mãe, que é também a Mãe de todos os homens, e que mais que ninguém depois de seu Filho conhece as imensas necessidades espirituais da hora presente.

Dirijamo-nos a ela com a maior confiança; ela foi chamada “a esperança dos desesperados”, e dirigindo-se a ela como à melhor das Mães e à mais iluminada, iremos à Jesus como ao nosso único e misericordioso Salvador.

Roma, Angélico.


1.O culto perpétuo das missas é mantido em particular pela União Eucarística, da qual a revista La Vie Spirituelle falou muitas vezes. Ver em particular La Vie Spirituelle, outubro de 1934 e março 1935, pág. 314.
2.Um movimento neste sentido, começado no Rio de Janeiro em 1935, atingiu rapidamente mais de oito milhões de horas de adoração para o ano de 1935.
3.Pensées de la servante de Dieu, Mère Marie de Jesus, 1841-1884, Roma, 1918, pág. 43.
4.Ibidem, pág. 50.

Fonte: Permanência

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A plenitude inicial de graças em Maria - Reginald Garrigou-Lagrange O.P.

Para começar o blog, eu não podia deixar de publicar este artigo, como homenagem de Amor filial à Minha Mãe, Maria Imaculada.
Sejam sempre louvados Jesus e Maria!


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A plenitude inicial de graças em Maria - Reginald Garrigou-Lagrange O.P.

A graça habitual que recebeu a bem-aventurada Virgem Maria no instante mesmo da criação de sua santa alma foi uma plenitude, na qual já se verificava aquilo que viria dizer o anjo no dia da Anunciação: « Ave Maria, cheia de graça ». É o que afirma, com a tradição, Pio IX, ao definir o dogma da Imaculada Conceição.

Ele diz mesmo que Deus, desde o primeiro instante, « de preferência a qualquer outra criatura (prae creaturis universis), fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que a todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade »1.

Perfeição desta plenitude inicial

Poderíamos citar aqui, sobre este ponto, inúmeros testemunhos da tradição2 Cf. Terrien, La Mère de Dieu, t. II, 1, VII, pags. 191-234. – De la Broise, S. J., La Sainte Vierge, cap. II e XII, e Dict. Apol., art. Marie, col. 207, ss. . Insistiremos sobretudo sobre as razões teológicas comumente invocadas pelos Padres e teólogos.

Santo Tomás3 explica a razão desta plenitude inicial de graças, quando diz: « quanto mais nos aproximamos de um princípio (de verdade e de vida), mais participamos de seus efeitos. É por isso que Denis afirma (De cœlesti hierarchia, cap. 4) que os anjos, que estão mais pertos de Deus que os homens, participam bem mais de seus favores. Ora, Cristo é o princípio da vida da graça; como Deus, é causa principal da graça e, como homem (após a ter merecido para nós), no-la transmite, pois sua humanidade é como um instrumento sempre unido à divindade: « a graça e a verdade nos vieram por meio dele » (Jo 1, 17). A bem-aventurada Virgem Maria, estando mais próxima de Cristo do que qualquer outra pessoa, uma vez que Cristo recebeu dela sua humanidade, recebeu dele, portanto, uma plenitude de graças que ultrapassa a das outras criaturas ».

S. João Batista e Jeremias foram também, como testemunha a Escritura, santificados no seio de suas mães, mas não foram preservados do pecado original; Maria, desde o primeiro instante, recebeu a graça santificante a um grau muito superior ao deles, com o especial privilégio de ser preservada para sempre de todo pecado, mesmo venial, o que não se afirma de nenhum santo4.

Na sua explicação da Ave Maria5, santo Tomás descreve a plenitude de graça em Maria (o que já se verifica na plenitude inicial), da seguinte maneira:

Enquanto que os anjos não manifestam respeito pelos homens, uma vez que lhes são superiores, como espíritos puros e por viverem sobrenaturalmente na santa familiaridade de Deus, o arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, mostra-se cheio de respeito e veneração por ela, pois compreendeu que ela o ultrapassava pela plenitude da graça, pela intimidade divina com o Altíssimo e por uma perfeita pureza.

Com efeito, ela tinha recebido a plenitude de graça à um tríplice ponto de vista: para evitar todo pecado, por menor que fosse, e praticar de modo eminente todas as virtudes; para que esta plenitude transbordasse de sua alma sobre seu corpo e para que ela concebesse o Filho de Deus feito homem; para que esta plenitude transbordasse também de sua alma sobre todos os homens6e nos ajudasse na prática de todas as virtudes. 

Ademais, ela ultrapassava os anjos por sua santa familiaridade com o Altíssimo; por isso, o arcanjo Gabriel disse ao saudá-la: «O Senhor é convosco », como se dissesse: sois mais íntima de Deus do que eu, pois Ele se tornará seu Filho, enquanto que não passo de seu servidor. De fato, como Mãe de Deus, Maria tem uma intimidade maior do que os anjos com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Enfim, ela ultrapassava os anjos por sua pureza, mesmo sendo estes últimos puros espíritos, pois ela não era somente puríssima em si mesma, mas já transmitia pureza aos outros. Não somente estava isenta do pecado original7 e de todo pecado, quer mortal, quer venial, mas também da maldição devida ao pecado: « darás à luz com dor… e retornarás ao pó » (Gn 3, 16, 19). Ela conceberá o Filho de Deus sem perder a virgindade, ela o carregará em seu seio num santo recolhimento, dará à luz na alegria, será preservada da corrupção do sepulcro e associada pela Assunção à Ascensão do Salvador.  

Ela já é bendita entre todas as mulheres, posto que só ela, com seu Filho e por Ele, levantará a maldição que pesava sobre a raça humana, e nos trará a benção abrindo-nos as portas do céu. É por isso que é chamada Estrela do mar, pois dirige os cristãos ao porto da eternidade. 

O anjo lhe dirá, « bendito o fruto de vosso ventre ». Com efeito, enquanto o pecador procura, naquilo que deseja, o que não pode encontrar, o justo encontra tudo no que deseja de modo santo. Desde esse ponto de vista, o fruto do ventre de Maria será três vezes bendito.

Eva desejou o fruto proibido para ter « a ciência do bem e do mal » e saber viver só, sem a necessidade de obedecer; ela foi seduzida pela mentira: « sereis como deuses »; e longe de tornar-se semelhante à Deus, afastou-se e desviou-se dele. Ao contrário, Maria encontrou tudo no fruto bendito de seu ventre; nele, encontrou o próprio Deus e faz com que o encontremos.

Eva, cedendo a tentação, cobiçou o deleite e encontrou a dor. Ao contrário, Maria encontrou e nos leva a encontrar a alegria e a salvação em seu divino Filho.

Enfim, o fruto desejado por Eva não tinha senão uma beleza sensível, enquanto que o fruto do ventre de Maria é o esplendor da glória espiritual e eterna do Pai. A Virgem, ela mesma, é bendita; porém, mais ainda o é seu Filho, que à todos homens leva a salvação e a bem-aventurança. 

Assim fala Santo Tomás da plenitude de graça em Maria em seu Comentário da Ave Maria; ele tem em mente sobretudo a plenitude realizada no dia da Anunciação, mas isto também já se aplica, em certa medida, à plenitude inicial, assim como aquilo que se diz do rio, se aplica à fonte do qual procede. 

Comparação da graça inicial de Maria à dos santos 

Questionou-se se a graça inicial de Maria foi maior que a graça final de qualquer anjo ou homem, e mesmo se foi maior que agraça final de todos os anjos e santos juntos. Esta questão foi levantada não à respeito da graça consumada no céu, mas daquela que precede imediatamente a entrada no céu8.

À primeira parte desta questão, os teólogos respondem comumente de modo afirmativo; é particularmente a opinião de S. João Damasceno9, de Suarez10, de Justin de Miéchow, O.P.11, de Ch. Veja12, de Contenson13, de Santo Afonso14, do Pe.Terrien15, Godts, Hugon, Merkelbach etc.

Hoje, todas as obras de Mariologia são unânimes sobre este ponto e consideram a coisa como certa; isto é mesmo expresso por Pio IX na Bula Ineffabilis Deus, na passagem que acima citamos.

A razão principal é tomada da Maternidade divina, motivo de todos os privilégios de Maria, e esta razão se apresenta sob dois aspectos, conforme consideremos o fim ao qual foi nela ordenada a primeira graça ou o amor divino que foi causa desta graça. 

A primeira graça foi, com efeito, concedida a Maria como uma digna preparação à maternidade divina, ou para prepará-la para ser a digna Mãe do Salvador, cf. Santo Tomás (q. 27, a. 5, ad 2). Ora, a graça, mesmo consumada, dos outros santos, não será ainda uma digna preparação à maternidade divina, que pertence à ordem hipostática, ou da união ao Verbo. Portanto, a primeira graça em Maria já ultrapassa a graça consumada dos outros santos. 

Do mesmo modo, piedosos autores exprimem esta verdade aplicando esta palavra do Salmo 86: « Fundamenta ejus in montibus sanctis » e eles a entendem assim: o cume da perfeição dos outros santos não é ainda o início da santidade de Maria. 

Esta mesma razão nos aparece sob um outro aspecto se consideramos o amor incriado de Deus pela Santa Virgem: como a graça é o efeito do amor, ato de Deus que nos torna amáveis à seus olhos, tais como filhos adotivos, recebe-se a graça tanto mais abundantemente quanto mais se é amado por Deus. Ora, Maria, desde o primeiro instante, em sua qualidade de futura Mãe de Deus, foi mais amada que qualquer outro santo, mesmo chegado ao fim de sua vida, e mais que qualquer anjo. Ela, portanto, recebeu, desde o primeiro instante, uma graça superior.

Disso não há nenhuma dúvida e não mais se discute hoje em dia. 

A primeira graça em Maria foi superior à graça final de todos os santos e anjos juntos? 

Alguns teólogos o negaram, tanto entre os antigos como entre os modernos16

No entanto, é ao menos muito provável, senão certo17, segundo a grande maioria dos teólogos, de modo que deve-se responder afirmativamente com Ch. Vega, Contenson, santo Afonso, Godts, Monsabré, Tanquerey, Billot, Sinibaldi, Hugon, L. Janssens, Merkelbach etc.

Antes de mais nada, há um argumento de autoridade.

Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, favorece manifestamente esta doutrina, quando diz, na passagem já citada: « Deus ab initio,… Unigenito Filio suo Matrem… elegit atque ordinavit, tantoque prae creaturis universis est prosecutus amore, ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit. Quapropter, illam longe ante omnes angelicos Spiritus, cunctosque sanctos caelestium omnium charismatum copia de thesauro Divinitatis deprompta ita mirifice cumulavit, ut… eam innocentiae et sanctitatis plenitudinem prae se ferret, et quae major sub Deo nullatenus intelligitur, et quam praeter Deum nemo assequi cogitando potest.»18

Segundo o sentido óbvio, todas estas expressões, especialmente esta: « cunctos sanctos », significam que a graça em Maria, desde o primeiro instante, ao qual se refere o Papa, ultrapassava a de todos os santos juntos; se Pio IX quisesse dizer que a graça em Maria ultrapassava a de qualquer santo, teria escrito « longe ante quemlibet angelum et sanctum » e não « longe ante omnes angelicos spiritus, cunctosque sanctus ». Também não teria dito que Deus a amou mais que a todas as criaturas « prae creaturis universis » e que foi nela que mais se deleitou, « ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit ».

Não se pode dizer que não se refira ao primeiro instante, pois Pio IX, imediatamente após a passagem citada, acrescenta: « Decebat omnino ut Beatissima Virgo Maria perfectissimae sanctitatis splendoribus semper ornata fulgeret ».

Um pouco mais adiante, na mesma bula, diz o Papa que, segundo os Padres da Igreja, Maria é superior pela graça aos querubins, aos serafins e à toda a milícia angélica « omni exercitu angelorum », ou seja, à todos os anjos juntos. Quanto a isso, todos concordam se se trata de Maria no céu, mas é preciso lembrar que o grau de glória celeste é proporcional ao grau de caridade no momento da morte e que este em Maria era, ele próprio, proporcional à dignidade de Mãe de Deus, à qual a Santa Virgem foi preparada desde o primeiro instante.

A este argumento de autoridade, tirado da bula Ineffabilis Deus, é necessário acrescentar duas razões teológicas que precisam aquelas que expusemos um pouco acima e que derivam da maternidade divina, conforme consideremos o fim ao qual foi ordenado a primeira graça ou o amor incriado, que foi sua causa.

Para bem compreender estas duas razões teológicas, é preciso, antes de mais nada, notar que, ainda que pertença a graça à ordem da qualidade e não à da quantidade, do fato de que a plenitude inicial em Maria ultrapasse a graça consumada do maior dos santos, não é imediatamente evidente para todos que ultrapasse a graça de todos os santos reunidos. A visão da águia, como qualidade ou potência, ultrapassa a do homem que tiver os melhores olhos, mas ela não lhe permite, entretanto, ver o que vêem o conjunto dos homens espalhados pela superfície da terra. É verdade que entra aqui uma questão de quantidade ou de extensão e distância, o que não acontece quando se trata de uma pura qualidade imaterial. Convém, contudo, acrescentar aqui um novo esclarecimento; e este esclarecimento pode conduzir não apenas à uma probabilidade, mas à certeza.

1o. A primeira graça, em Maria, posto que a preparava para ser a digna Mãe de Deus, devia já ser proporcionada, ao menos de modo distante, à maternidade divina. Ora, a graça final de todos os santos, mesmo tomados juntos, ainda não é proporcionada à dignidade da Mãe de Deus, que é de ordem hipostática, como nós já vimos. Portanto, a graça final de todos os santos juntos é inferior à primeira graça recebida por Maria.

Este argumento parece em si mesmo certo, ainda que alguns teólogos não tenham compreendido todo seu alcance.

Objetou-se: a primeira graça em Maria ainda não é uma preparação próxima à maternidade divina; logo, a prova não é conclusiva. 

Muitos teólogos responderam: ainda que a primeira graça em Maria não seja uma preparação próxima à maternidade divina, ela é, contudo, uma preparação digna e proporcionada, conforme a expressão de santo Tomás, IIIa, q. 27, a. 5 ad 2m: « prima quidem (perfectio gratiae) quasi dispositiva, per quam B. Maria Virgo reddebatur idonea ad hoc quod esset mater Christi ». Ora, a graça consumada de todos os santos juntos não é ainda proporcionada à maternidade divina, que é um privilégio único no mundo e de ordem hipostática. A prova conserva, portanto, seu valor. 

2° A pessoa que é mais amada por Deus que todas as criaturas juntas, recebe uma graça maior do que recebem todas as criaturas juntas, pois a graça é efeito do amor incriado e lhe é proporcionada. Como diz S. Tomás, Ia. q. 20, a. 4: « Deus ama mais este que aquele, na medida em que quer para este um bem superior, pois a vontade divina é a causa do bem que existe nas criaturas. » Ora, desde toda eternidade, Deus amou Maria mais que todas criaturas juntas, como aquela que devia preparar desde o primeiro instante de sua conceição para ser a digna Mãe do Salvador. Conforme a expressão de Bossuet: « Ele sempre amou Maria como mãe, e a considerou como tal desde o primeiro momento em que foi concebida ».

Isso não exclui, por outro lado, o progresso de santidade ou o crescimento da graça em Maria, pois esta, sendo uma participação da natureza divina, pode sempre aumentar e prossegue sempre finita; mesmo a plenitude final de graça em Maria é limitado, ainda que transborde sobre todas as almas.

À estas duas razões teológicas relativas à maternidade divina, acrescenta-se uma importante confirmação que aparecera mais e mais ao se falar da mediação universal de Maria. Ela podia, com efeito, desde aqui em baixo e desde que pode merecer e rogar, mais obter por seus méritos e suas orações que todos os santos juntos, pois eles nada obtém sem a mediação universal da Santa Virgem, que é como o aqueduto das graças ou, no corpo místico, como o pescoço pelo qual os membros se unem à cabeça. Resumindo, Maria, desde que pode merecer e rogar, podia, sem os santos, obter mais que todos os santos juntos sem ela. Ora, o grau do mérito corresponde ao grau da caridade e da graça santificante. Maria, portanto, recebeu desde o início de sua vida um grau de graça superior àquele que possuíam todos os santos e anjos juntos, imediatamente antes de sua entrada no céu.

Há outras confirmações indiretas ou analogias mais ou menos distantes: uma pedra preciosa, como o diamante, vale mais que um monte de outras pedras reunidas. Do mesmo modo, na ordem espiritual, um santo como o Cura d'Ars conseguia mais com suas orações e méritos que todos seus paroquianos juntos. Um fundador de ordem, como São Bento, por si só, pela graça divina que recebeu para sua obra, vale mais que todos seus primeiros companheiros, pois todos reunidos não poderiam ter criado a ordem que ele criou, enquanto que ele teria podido encontrar outros irmãos como aqueles, que o seguiriam. Já se fez ainda outras analogias: a inteligência de um arcanjo ultrapassa a de todos os anjos inferiores a ele em conjunto. O valor intelectual de um Santo Tomás ultrapassa o de todos seus comentadores juntos. O poder de um rei é superior não apenas ao de seu primeiro ministro, mas ao de todos seus ministros em conjunto. 

Se os antigos teólogos não trataram explicitamente desta questão, assim o o foi porque, muito provavelmente, a solução lhes parecesse óbvia. Diziam eles, por exemplo, ao final do tratado da graça, para mostrar a sua dignidade: enquanto que uma moeda de dez francos não vale mais que dez de um franco, uma graça ou uma caridade de dez talentos vale muito mais que dez caridades de um só talento19; é por isso que o demônio procurar manter na mediocridade as almas que, pela vocação sacerdotal ou religiosa, são chamadas para uma vida muito elevada; ele quer impedir o pleno desenvolvimento da caridade, que faria bem muito maior que uma caridade inferior simplesmente multiplicada no seu grau mais comum, que vem acompanhada de tibieza.

É preciso aqui prestar atenção à ordem da pura qualidade imaterial que é aquela da graça santificante. Se a visão da águia não ultrapassa a de todos os homens reunidos, é porque entra aqui uma questão de quantidade ou de distância local, o fato que os homens espalhados em diferentes regiões na superfície da terra podem ver o que a águia, posta sobre um cume dos Alpes, não pode. Ocorre diferentemente na ordem da pura qualidade.

Se isto é verdadeiro, não é de se duvidar que Maria, pela primeira graça que já a dispunha à maternidade divina, valia mais aos olhos de Deus que todos os apóstolos, mártires, confessores e virgens reunidas, que existiram e que hão de existir na Igreja, mais que todas as almas e que todos os anjos criados desde a origem do mundo.

Se a arte humana faz maravilhas de precisão e beleza, o que não pode fazer a arte divina na criatura de sua predileção, da qual se diz: « Elegit eam Deus et præelegit eam » e que foi engrandecida, diz a liturgia, acima de todos os coros dos anjos. A primeira graça recebida por ela foi já uma digna preparação à maternidade divina e à sua glória excepcional, que vem imediatamente abaixo da de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela sofreu, ademais, como ele, à proporção, pois devia ser vítima com ele, para ser também vitoriosa com ele, e por ele.

Estas razões teológicas já nos permitem entrever toda a elevação e a riqueza da plenitude inicial de graças em Maria. Se as obras-primas da literatura clássica, grega, latina ou francesa, contém muito mais beleza do que se imagina numa primeira leitura, quando as lemos entre nossos quinze e vinte anos; se estas belezas não nos aparecem senão quando retomamos a leitura destas obras numa idade um pouco mais avançada; se ocorre igualmente com escritos de um santo Agostinho ou santo Tomás, que pensar das belezas nas obras primas do próprio Deus, naquelas obras compostas imediatamente por ele e, em particular, na obra-prima espiritual, quanto a natureza e quanto a graça, que é a santíssima alma de Maria, Mãe de Deus. Somos, de início, obrigados a afirmar a riqueza da plenitude inicial de graças nela por força de sua beleza entrevista; ocorre, em seguida, de perguntarmo-nos se não vai nisso exagero, se não transformamos uma probabilidade em certeza; finalmente, um estudo aprofundado nos reconduz à primeira afirmação, mas com conhecimento de causa, não mais apenas porque é belo, mais porque é verdadeiro, e porque há conveniências não apenas teóricas, mas que efetivamente motivaram a escolha divina, nas quais se repousou a vontade divina.

(La vie spirituelle n° 253, maio de 1941)



1.Ineffabilis Deus: « Ineffabilis Deus… ab initio et ante sæcula unigenito Filio suo Matrem, ex qua caro factus in beata temporum plenitudine nasceretur elegit atque ordinavit, tantoque prae creaturis universis est prosecutus aurore ; ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit. Quapropter illam longe ante omnes angelicos Spiritus, cunctosque Sanctos cælestium omnium charismatum copia de thesauro Divinitatis, deprompta ita mirifice cumulavit, ut ipsa ab omni prorsus peccati labe semper libera, ac tota pulchra et perfecta eam innocentia et sanctitatis plenitudinem præ se ferret, qua major sub Deo nullatenus intelligitur, et quam præter Deum nemo assequi cogitando potest ». Deus inefável… Assim Deus, desde o princípio e antes dos séculos, escolheu e pré-ordenou para seu Filho uma Mãe, na qual Ele se encarnaria, e da qual, depois, na feliz plenitude dos tempos, nasceria; e, de preferência a qualquer outra criatura, fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade, que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender. » [N. da P.] Para a íntegra da Bula:http://www.capela.org.br/Magisterio/Pio%20IX/ineffabilis8dez.htm.
2.IIIa, q. 27, a. 5.
3.IIIa, q. 27, a. 5.
4.Ibidem, a. 6, ad 1m.
5.« Expositio super salutatione angelica », opúsculo escrito cerca de 1272-1273. [N. da P.] Leia a tradução para o português no site da Permanência:www.permanencia.org.br/tomas/Sermoes.pdf
6.Os teólogos dizem comumente hoje em dia que Maria nos mereceu de um mérito de conveniência (de congrue) tudo o que Cristo nos mereceu em estrita justiça (de condigno).
7.Cf. a recente edição crítica do opúsculo de santo Tomás que aqui citamos, edição publicada por J.-F. Rossi, C. M., « S. Thomae Aquinatis Expositio Salutionis Angelicæ » (Divus Thomas, Placentiae, 1931, p. 445-479), lê-se nesse passo no original: « Ipsa enim (beata Virgo) purissima fuit et quantum ad culpam, quia nec originale, nec mortale, nec veniale peccatum incurrit… ». Vê-se por este texto que santo Tomás, no fim de sua vida (1272-1273) voltava a afirmar, como o havia afirmado no primeiro período de sua carreira teológica, que Maria fora preservada do pecado original.« Talis fuit puritas beatæ Virginis, quæ a peccato originali et actuali immunis fuit » (I Sent., Q. 44, q. 1, a. 3, ad 3m). O que havia afirmado inicialmente no arroubo de sua piedade, reafirmava, após um período de hesitação, por um julgamento mais maduro e embasado. Não é incomum, neste tipo de questões, que o teólogo afirme inicialmente um privilégio enxergando apenas sua conveniência, alguma coisa de belo, e, finalmente, o reafirme por compreender sua veracidade. G. J.-M. Vosté, O. P., Commentarius in III P., in q. 27, a. 2, Rome, 2° éd..1940.
8.Os teólogos admitem geralmente que a graça consumada de Maria no céu ultrapassa a glória de todos os santos e anjos reunidos; e que, pelo menos a graça final de Maria, no momento de sua morte, ou mesmo no momento da Encarnação do Verbo, ultrapasse a graça final de todos os santos reunidos no término de suas vidas terrestres. Aqui, nós nos perguntamos se a plenitude inicial de Maria já tinha este valor comparada à graça dos santos. Sabemos, por outro lado, que no que toca os eleitos, o grau de glória corresponde ao grau de graça e de caridade que eles tinham antes da entrada no céu.
9.Orat. De Nativ. Virg. P. G. XCVI, 648, ss.
10.« De Mystiriis vitae Christi », disp. IV, sect. I.
11.« Collat. super Litanias B. Mariæ Virg. », col. 134.
12.« Theologia Mariana », n° 1150 ss.
13.« Theolog. Mentis et cordis », 1, 10, diss. VI, c. 1.
14.« Glorie di Maria », II, P., disc. 2.
15.« La Mère de Dieu », t. 1.
16.Théophile Raynaud, Terrien et Lépicier somente respondem afirmativamente quando se trata da plenitude final de graça em Maria, no fim de sua vida mortal. Outros, como Valentia, consentem se se trata da plenitude de graça da segunda santificação, no momento da Encarnação do Verbo; mas, com santo Afonso, « Li Glorie di Maria », II, disc. 2, p. 1, a grande maioria de teólogos modernos o admitem quanto a plenitude inicial. As duas primeiras afirmações são certas, a terceira, relativa à plenitude inicial, é pelo menos muito provável, como bem o mostra o Pe. Merkelbach. « Mariologia » 1939, p. 178-181.
17.Nós consideramos pessoalmente a coisa como certa, por causa dos princípios que iremos expor ao fim do presente artigo, princípios comumente admitidos pelos antigos teólogos.
18.A tradução deste importante texto foi dada na nota 1, para onde remetemos o leitor.
19.Cf. « Salmanticenses », Cursus theol., de Caritate, disp. V, dub. III, § 7, n° 76, 80, 85, 93, 117.


Fonte: Permanência