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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Honrar a Mãe é honrar o Filho - Cardeal John Henry Newman





HONRAR A MÃE É HONRAR O FILHO


Confessar que Maria é mãe de Deus, é preservar a doutrina do Apóstolo São João que nos diz: “o que vimos e ouvimos vo-lo isso anunciamos”(1Jo 1, 3), fugindo de qualquer subterfúgio; é a pedra de toque com que detectamos as pretensões dos maus espíritos, do “Anticristo que entrou no mundo” (cf. 1Jo 4, 3). Essa confissão declara que Ele é Deus, implica que Ele é homem, sugere que Ele segue sendo Deus, mesmo se fazendo homem; e que é verdadeiro homem, mesmo sendo Deus.

Quando os hereges voltaram a surgir no século XVI, não encontraram tática mais certeira para seus perversos propósitos de destruir a fé verdadeira, ridicularizando e blasfemando contra as prerrogativas de Maria, pois tinham por certo que, se conseguissem que o mundo desonrasse a Mãe, disso se seguiria a desonra do Filho. A Igreja Católica e Satanás estavam de acordo com isso: o Filho e a Mãe estão intimamente ligados; a experiência de quatro séculos confirmou seus testemunhos, pois os católicos que honraram a Mãe seguem adorando o Filho, enquanto os protestantes, que deixaram de confessar o Filho, começaram a zombar da Mãe.

Percebe-se nesse exemplo a coerente harmonia que há na doutrina revelada, como uma verdade repercute sobre a outra. Exaltar Maria é honrar Jesus. Convinha que Maria, que era somente criatura – sendo a mais excelsa de todas – tivesse de levar a cabo a tarefa de instrumento. Como outros, Ela veio ao mundo para realizar uma obra; tinha uma missão a cumprir; possui a graça e a glória não por si mesma, mas por seu Criador. A Maria foi confiada a custódia da Encarnação. A tarefa lhe é encomendada: “Eis que uma Virgem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7, 14).

Quando estava na terra cuidou pessoalmente de seu Filho, levou-o em seu seio, abrigou-o com seus braços, alimentou-o em seu peito, agora também – até o último momento da vida da Igreja – seus privilégios e a devoção dirigida a Maria proclamam e definem a fé reta acerca de Jesus como Deus e como Homem. Uma igreja dedicada, um altar que se erige em seu nome, uma imagem, uma ladainha que a louva, uma Ave Maria que se reza, comunica-nos a memória d’Aquele que, sendo louvado desde a eternidade, “não desprezou as entranhas de uma Virgem”, para benefício dos pecadores. Por isso, como a Igreja a proclama, Maria é a Torre de Davi, é a defesa alta e poderosa do verdadeiro Rei de Israel; por isso, a Igreja diz também em uma antífona: “Só Ela destruiu [sozinha] todas as heresias no mundo inteiro”.

[…]

Cardeal Newman, “Reflexões sobre a Virgem Santíssima”, pp. 19-21. Editora Formatto, São Paulo, 2006

Créditos: Deus lo Vult!

sábado, 31 de outubro de 2015

Os mistérios do Rosário à luz do princípio da Plenitude da Graça em Jesus e em Maria - Garrigou-Lagrange



MISTÉRIOS GOZOSOS

1. — A ANUNCIAÇÃO 

"Ave, gratia plena" (Lc 1, 28). Desde o instante de sua concepção imaculada, Maria recebeu a graça com tamanha plenitude inicial, que excedeu a de todos os santos e anjos reunidos, como um único diamante vale mais do que um punhado de outras pedras preciosas; e como um fundador de Ordem é superior a seus filhos pela inspiração especial que recebeu. Esta plenitude de fé, de esperança, de caridade, que, em Maria, pelos seus méritos, não cessou de crescer, lhe foi dada em virtude de sua missão, única no mundo, de mãe de Deus; em virtude de sua maternidade divina, que ultrapassa a ordem da graça e atinge, de um certo modo, a ordem hipostática, constituída pela união pessoal da humanidade de Jesus ao Verbo de Deus. É este mistério da Encarnação aqui anunciado a Maria. Sob a luz de Deus ela diz seu Fiat com uma grande fé, uma grande paz e também com uma grande coragem, pois pressente para seu Filho os sofrimentos anunciados pelos profetas; e serão seus também os sofrimentos de seu Filho. Depois deste Fiat, no momento em que se realiza o mistério da Encarnação, a vinda do Verbo aumenta consideravelmente, em Maria, a plenitude inicial de caridade; assim, a Virgem participa, mais do que ninguém jamais participará, dos efeitos que produz na santa alma do Cristo a plenitude ainda superior, que ela recebe no momento mesmo da Encarnação. O Verbo se encarna para nos salvar, morrendo por nós na cruz; na sua santa alma e na alma de Maria a plenitude de graça produz então dois efeitos aparentemente contraditórios mas intimamente unidos, a mais profunda paz que deverá irradiar-se sobre nós, e um desejo da Cruz que se revelará mais e mais até a hora do Consummatum est.

2. — A VISITAÇÃO 

Maria saudou Isabel e, como diz São Lucas (1, 41), quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança que ela trazia estremeceu em seu seio e ela ficou cheia do Espírito Santo. Elevando a voz, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. E donde a mim esta dita, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque, logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino exultou de alegria no meu ventre."
Maria, que vai dar luz a N. S., leva a graça a Isabel e ao precursor que vai nascer. Maria, ela própria, foi resgatada, de uma maneira absolutamente excepcional, pelos méritos futuros de seu Filho e ela concorre para a redenção de todos nós. No instante de sua concepção imaculada, ela foi resgatada por uma redenção soberana, redenção soberana e preservadora, que o Redentor exerceu, ao menos em relação a uma alma, em relação àquela que deveria associar-se a Ele, mais do que qualquer outra, na obra da salvação dos homens. Neste sentido quis o Senhor que ninguém fosse salvo senão levando em conta os méritos de sua Mãe. Assim Ele quis santificar o Precursor pelas palavras de Maria.

3. — O NASCIMENTO DE JESUS

A plenitude de graça da Virgem Santíssima cresce com o nascimento do Salvador, quando ela tem a imensa alegria de entregá-lo ao mundo.

Deixemos as alegrias freqüentemente demasiado humanas, às vezes perigosas, que nos afastariam de Deus, para viver a elevada e puríssima alegra da Boa Nova do Evangelho. O anjo disse aos pastores que à noite guardavam seus rebanhos: "Não temais, porque eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo. É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é o Cristo, o Senhor." A alegria do mistério da Encarnação é a da presença real de Deus entre nós, de Deus que vai continuar a viver no meio de nós na Eucaristia. "Gloria in excelsis Deo, et in terra pax hominibus bonae voluntatis" (Lc 2, 14). É o primeiro efeito da plenitude da graça que começa a brilhar sobre nós.

4. — APRESENTAÇÃO DE JESUS NO TEMPLO

No dia da Anunciação Maria tinha dito seu Fiat com paz e grande alegria; mas, também, na dor, pois pressentia os sofrimentos do Salvador, tão claramente anunciados por Isaías. Esta dor aumenta hoje, quando a Virgem Santa é diretamente esclarecida pela profecia do velho Simeão, que prediz de um modo bem claro: "Eis que este (Menino) está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo da contradição. E uma espada traspassará a tua própria alma, afim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos." (Lc 34, 35)

Maria, apresentando seu Filho no Templo, oferece-o por nós na dor; este sofrimento está, entretanto, intimamente unido à alegria profunda que ela sente ouvindo as palavras de paz de Simeão: "Agora, Senhor, deixas partir o teu servo em paz, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação, a qual preparaste ante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações, e glória de Israel, teu povo." (Lc 2, 29, 32)

5. — JESUS É ENCONTRADO NO TEMPLO

Nosso Senhor diz à sua Santa Mãe e a José: "Por que me procuráveis? Não sabieis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?" Maria aceita, na obscuridade da fé, o que ainda não podia compreender; progressivamente o mistério da Redenção ser-lhe-á revelado em toda a sua profundidade e em toda a sua extensão. É uma alegria reencontrar Jesus, mas esta alegria faz pressentir muitos sofrimentos.
Da mesma maneira, a história da vida das almas começa com a alegria que nos traz o desejo do fim último apenas entrevisto, mas logo em seguida N. S. nos faz compreender que para atingi-lo é preciso percorrer ásperos e difíceis caminhos. Assim, deve haver três grandes atos na vida de uma alma: o desejo jubiloso da beatitude do céu; a escolha, constantemente renovada, dos meios, às vezes dolorosos, que a ele conduzem; a posse do fim alcançado. Esses três grandes atos correspondem aos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. O Rosário é, assim, uma escola de contemplação; ele nos conduz, suavemente, à contemplação viva que dirige a ação.

MISTÉRIOS DOLOROSOS

6. — AGONIA DE JESUS NO HORTO
Nesta tristeza acabrunhante, Jesus mantém-se perfeitamente conformado com a vontade de Deus: "Meu Pai, se for possível, afastai de mim este cálice, mas faça-se a Vossa vontade e não a minha." (Mt 26, 39).

Comparemos às nossas esta tristeza de Jesus. Quantas vezes nossa insensatez nos leva a tristezas sem fundamento? Outra vezes nossos pecados e imprudências trazem conseqüências dolorosas, mas bem merecidas, contra as quais nos irritamos. Para nos purificar, o Senhor às vezes nos envia provações muito penosas que, ai de nós, raramente suportamos bem. Contemplemos nossos dois grandes modelos — Jesus e Maria — e compreenderemos que o verdadeiro mal que nos deve afligir, são os pecados cometidos, com suas conseqüências bem maiores do que pensamos, os pecados que perdem as almas. Nosso Senhor sofreu, na medida de seu amor pelo seu Pai, ofendido e por nós, que o ofendemos.

Supliquemos-lhe que nos ensine a sofrer de um modo proveitoso para nós e, também, para os outros. Jesus, por seu amor, transformou aquilo que parece mais inútil, a dor, no que há de mais fecundo. Num certo sentido Ele está, até o fim do mundo, em agonia no seu Corpo Místico, no corpo de seus membros que carregam a cruz. Assim como os nossos olhos não podem passar sem a luz do sol, assim o Corpo Místico não pode passar sem o sofrimento reparador, irradiação do sofrimento do Cristo.

Em Gethsemani, Jesus chorou por nossos pecados, sofreu até o suor de sangue. Peçamos-Lhe a contrição verdadeira e profunda de nossos pecados, as santas lágrimas da contrição das quais Ele disse nas bem-aventuranças: "Beati qui lugente, quonian ipsi consolabuntur."

7. — A FLAGELAÇÃO

Jesus expia, pelos seus ferimentos, as vontades criminosas dos homens. Ele é ferido e nós somos curados. Maria, que vê seu Filho flagelado por nós, não é curada, mas preservada por Ele do pecado original e de suas conseqüências acabrunhadoras; é preservada, também, de nossa triste concupiscência. Assim, soberanamente resgatada por Ele, deu-lhe ela este sangue puríssimo que, neste momento, é derramado pelos chicotes dos carrascos para nos curar da concupiscência da carne, que nos afasta de Deus, aflige as famílias e arruína os povos.

Pro peccatis suae gentis
Vidit Jesum in tormentis
Et flagellis subditum.
(Stabat Mater)

8. A COROAÇÃO DE ESPINHOS

Jesus é coroado de espinhos, por escárnio e por crueldade; mas esta coroa dolorosa, sob a qual Ele expia nossos pecados de orgulho, florescerá em coroa de glória, aquela coroa do Rei dos reis, do Senhor dos senhores. E Maria, vendo-o passar coroado de espinhos, será associada a esta glória. "O Rei a amou com uma predileção única... e sobre sua cabeça depositou o diadema da realeza." (Esther, 2, 17). Antes de associá-la à sua vitória final, Nosso Senhor uniu-a aos seus sofrimentos, na paz interior que, apesar de tudo, permanece no fundo de seus corações e no desejo de imolar-se, num perfeito holocausto, pela salvação dos homens. A paz daquele que é assim coroado de espinhos, não permanece apenas no fundo de sua alma. Irradia-se há dois mil anos sobre todos os que meditam em seus corações na paixão dolorosa, na humildade do Salvador e na da sua Santa Mãe.

Como diz São Grignion de Montfort, o demônio, que é o orgulho personificado, sofre mais sendo vencido pela humildade de Maria do que se fosse esmagado duma vez pelo Todo Poderoso.

O humilde Jesus, coroado de espinhos, será elevado acima de todos. "Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso também Deus o exaltou, e lhe deu um nome que está acima de todo o nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo o joelho no céu, na terra e no inferno, e toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre". (Fl 2, 8).

9. — JESUS CARREGA A CRUZ.

"Se alguém quer seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me." 
Carreguemos, a nossa cruz, santamente, em união com o Salvador, e encontraremos nela uma doçura verdadeira que o espírito do mundo não pode conhecer. Se não levamos a cruz como devemos é porque nosso desejo de vida eterna não é bastante forte, bastante vivo e intenso. Se recuamos diante da severidade do meio é porque o desejo do fim não é tanto quando deveria ser. É preciso avivar este desejo pedindo à Virgem Santa que o aumente em nós, juntamente com a fé, a esperança e a caridade. Levadas com amor, nossas cruzes serão menos penosas, porém mais meritórias. A caridade é o princípio do mérito e torna mais suave o jugo do Senhor.

Senhor, transformai as provações que, muitas vezes, nos abatem sem proveito; fazei com que elas nos aproximem do fim almejado e se tornem, para nós e para os outros, um penhor de vida eterna.

O caminho da cruz nos lembra que não há, como o disse alguém, senão um mal verdadeiro (sobretudo em circunstâncias graves), o de não sermos santos. Temos, ao menos, a certeza absoluta de que não teremos de carregar uma cruz superior às nossas forças, ajudadas pela graça. Estamos certos do nosso guia. Resta-nos, apenas, seguir os seus passos.

10. — A CRUCIFIXÃO

Jesus vai morrer no meio dos mais atrozes sofrimentos físicos e morais e com exceção de S. João, todos os apóstolos partiram! A mãe das dores faz, então, o maior ato de fé e de esperança que jamais existiu. O crucificado entretanto tem algo mais que a fé e a esperança. Conserva, mesmo na agonia, a visão da essência divina; mas Ele como que retém esta glória no cimo de sua inteligência, para entregar-se à dor. Parece vencido, sua obra parece destruída, quase todos os discípulos partiram. Maria não cessa, um só instante, de acreditar que Ele é o Salvador, o Verbo de Deus encarnado que ressuscitará ao terceiro dia, conforme predissera. Maria compreende, como ninguém jamais compreenderá, as sete palavras que Ele pronunciou antes da morte. Ela oferece ao Pai este Filho, não apenas querido, mas legitimamente adorado, com todo o amor de que é capaz, e oferece o amor, ainda maior, d'Aquele que morre por nós. Oferecendo-o, deste modo, recebe a plenitude final da graça, que a torna, mais do que nunca, Mãe dos homens, co-redentora e medianeira universal. 

Maria, deste modo, "carregou a morte de Cristo". Supliquemos-lhe: "Fac ut portem Christi mortem". Peçamos-lhe tornar-nos participantes dos dois grandes efeitos da plenitude da graça: a paz e o desejo da cruz. Que ela nos faça amar a cruz como todos os santos a amaram e nos conceda uma compreensão, sempre mais viva e mais profunda, do mistério da Redenção, e do valor infinito da Missa, que o perpetua sobre nossos altares.

MISTÉRIOS GLORIOSOS

11. — A RESSURREIÇÃO 

Jesus venceu a morte, porque, na cruz, venceu o demônio e o pecado. Jesus pôde dizer a seus discípulos: "Venci o mundo" (Jo 16, 33); isto é, venci o espírito do mundo feito de concupiscência e de orgulho. Na ressurreição temos o sinal claro desta vitória. Não é a morte a conseqüência e o castigo do pecado? (Rm 5, 12) A vitória sobre a morte deve ser a conseqüência da vitória sobre o pecado. É isto que faz São Paulo dizer: "E se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, porque ainda permaneceis nos vossos pecados." (1 Cor 15, 17).

Este é o sentido da ressurreição e dos mistérios gloriosos que a seguem. Os mistérios gozosos falavam da alegria que acompanha o vivo desejo do fim último entrevisto; os mistérios dolorosos lembravam os severos meios que, carregando a cruz, precisamos utilizar dia a dia; os mistérios gloriosos falam do fim último já conquistado.

Estes mistérios nos introduzem na vida eterna, que é o nosso destino. Nossas alegrias e tristezas devem ordenar-se para esta glória, assim como, para ela, ordenaram-se as alegrias de Maria e do Menino Jesus e a dolorosa Paixão que, a ambos uniu, na oblação do mesmo holocausto. Contemplemos nossos dois grandes modelos e meditemos no dever de imitá-los, todos os dias de nossa vida, tendendo, com generosidade sempre crescente, para o fim ao qual eles nos querem conduzir.

12. — A ASCENSÃO

Jesus subiu ao céu, onde, à direita do Pai, reinará, eternamente, sobre as inteligências e sobre os corações. As almas dos justos entrarão com Ele no céu, para, na medida de seus méritos e segundo o seu grau de caridade, gozarem a visão beatífica. Por que a Virgem Santíssima que, ainda na terra, possuía uma caridade tão superior à de todos os santos, não acompanha logo seu Filho? A fim de permanecer ainda na Igreja militante, como o coração que ama, que sofre e que ainda merece, sustentando invisivelmente os Apóstolos nas suas difíceis tarefas. Nosso Senhor priva seus Apóstolos de Sua presença sensível, mas, como consolação, lhes deixa Sua mãe. A Igreja nascente deve seu desenvolvimento aos méritos passados do Salvador e, também, n'Ele, por Ele, com Ele, à prece e ao amor doloroso da Virgem, mãe espiritual de todos os homens.

13. — PENTECOSTES.

O Espírito Santo desce sobre a Virgem e os Apóstolos, de modo visível, sob a forma de línguas de fogo. Pensemos nas graças mais uma vez acrescidas à alma de Maria! Como a pedra que, quanto mais próxima está da terra, mais é atraída por ela e mais depressa cai, assim, a alma da Virgem, quanto mais próxima se acha de Deus, tanto mais rapidamente se eleva para Ele. Que aceleração prodigiosa no impulso de seu amor, desde a plenitude inicial, recebida no instante da imaculada conceição, desde a rapidez inicial, que já era superior ao impulso de caridade dos maiores santos! A lei da atração universal dos corpos não é senão um reflexo da lei, incomparavelmente mais elevada, que rege a tendência de todas as criaturas e, sobretudo, de todos os espíritos atraídos por deus. Desde que sigam livremente esta dupla inclinação da natureza e da graça, os espíritos elevam-se a Deus, com um amor cada vez mais intenso, até o momento em que, alcançando-O, chegam ao termo de sua jornada. Quanto mais se aproximam de Deus, mais são atraídos por Ele; é o que se verifica no dia de Pentecostes, na alma dos Apóstolos e, mais ainda, na alma de Maria, pois o impulso de sua caridade não foi retardada por nenhuma falta, nem por imperfeição alguma.

Se ela não recebeu o caráter sacerdotal, recebeu, contudo, a plenitude do espírito do sacerdócio, que é o espírito do Cristo Redentor, e ela o transmite aos Apóstolos, aos quais sua prece e sua imolação interior vão sustentar nos grandes trabalhos e lutas.

Pelas mãos da Virgem Santíssima, consagremo-nos ao Espírito Santo, pedindo-lhe que, de futuro, nos faça dóceis às suas tão numerosas e tão preciosas inspirações, as quais freqüentemente dissipamos. Peçamos também apóstolos, valorosas vocações sacerdotais; vocações numerosas, evidentemente, mas, sobretudo, generosas. Mais do que nós, Nosso Senhor deseja perpetuar seu sacerdócio e salvar as almas; muito agradaremos ao seu divino Coração obtendo, por Ele, com Ele e n'Ele, graças eficazes para formar uma elite fiel, que continua valentemente, pelos mesmos meios sobrenaturais, o apostolado dos Doze e o apostolado dos primeiros discípulos do Salvador.

14. — A ASSUNÇÃO

A Virgem Santíssima morreu de amor, sua alma foi arrebatada fora do corpo pela força de seu amor a Deus. Mas, assim elevada ao céu, pelo impulso de sua caridade, sua alma não demora em unir-se, novamente, ao corpo, que, não tendo tido nenhum contato com o pecado original, nem com o pecado atual, não deve conhecer a corrupção da carne. Nosso Senhor antecipa, deste modo, para ela, a hora da ressurreição. Associa sua Mãe Santíssima à vitória sobre a morte, porque, no Calvário, mais do que ninguém, ela fora associada à sua vitória sobre o pecado.
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. É pelos méritos de vosso Filho e por vossa intercessão que podemos fazer nossa oração. Fazei-nos compreender que, para os que amam o Senhor e o amam até o fim, tudo concorre para o bem, omnia cooperantur in bonum (Rm 8, 28). Tornai-nos daqueles que o amam assim até o fim; consegui-nos a graça da perseverança final, a graça da boa morte. Veremos, então, que, pela bondade de Deus, pelos méritos de vosso Filho e por vossas preces, tudo em nossas vidas terá sido para o bem. Tudo, as qualidades naturais, os esforços, todas as graças recebidas depois do batismo, todas as absolvições, todas as comunhões, como também todas as quedas, todas as cruzes, todas as contradições e até mesmo os pecados, pois, como diz Santo Agostinho, o Senhor só os permite na vida dos eleitos para conduzi-los a um conhecimento mais profundo de si mesmos, a uma humildade verdadeira, a um reconhecimento maior, depois da absolvição, e a um maior amor.

15. — A COROAÇÃO DE MARIA NO CÉU

A Santa Mãe de Deus foi elevada acima dos coros dos anjos: "exaltata est super choros angelorum, ad coelestia regna". Assim como não podemos fazer uma idéia da plenitude final de caridade possuída pela santa alma de Maria, possuída no momento de sua morte, não sabemos, também, determinar a intensidade da luz de glória que ela recebeu, nem a intensidade da visão pela qual, mais do que todos os santos, ela penetra nas profundezas da essência divina. Ela é, assim, Rainha dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, dos Doutores, dos Confessores, das Virgens, Rainha dos todos os santos; ela é, porém, mais mãe do que Rainha.

Peçamos-lhe, pois, de minuto em minuto, até à morte, a graça necessária ao momento presente. É esta graça que lhe pedimos dizendo: "Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora..." Solicitamos, assim, a mais particular das graças, a graça que varia a cada minuto, que nos coloca à altura dos nossos deveres do dia inteiro e que nos faz ver a grandeza de todas as pequenas coisas ligadas, de algum modo, à eternidade. Muitas vezes, dizemos distraídos este agora, mas, Maria, que nos ouve, não está distraída. Acolhe nossa prece e a graça necessária ao minuto presente, para continuarmos a rezar, a sofrer ou a agir, vem a nós, como o ar vem ao peito. Peçamos-lhe a graça de viver toda a riqueza deste minuto que passa, sobretudo na hora da prece. Há uma maneira precipitada, mecânica, anti-contemplativa, de recitar o ofício divino e o Rosário: livrai-nos, Maria, deste gênero de materialismo. Enquanto passa o minuto presente, lembrai-nos de que não é só nosso corpo ou nossa sensibilidade dolorosa ou alegremente impressionada que existe, mas também nossa alma espiritual, o Cristo que influi sobre ela e a Santíssima Trindade que habita em nós. Abandonemos à Misericórdia infinita todo nosso passado bem como nosso futuro e vivamos o momento presente de um modo muito prático e elevado; vejamos neste agora fugidio, seja ele suave, alegre ou penoso, uma imagem longínqua do único instante da eternidade imóvel e, nele, vejamos também uma prova viva, por causa da graça atual que encerra, da bondade paternal de Deus.

Neste período de nossa vida, digne-se a Virgem Santíssima fazer-nos conhecer as santas exigências do amor de Deus a nosso respeito; elas ultrapassam as dos períodos precedentes, assim como a graça deve crescer em nós até o momento de nossa morte. Deste modo toda a nossa vida será, verdadeiramente, uma marcha e mesmo uma marcha cada vez mais rápida para a eternidade, para Deus que nos atrai a si.

(Extr. de "L'amour de Dieu et la Croix de Jesus", trad. e publ. na revista A ORDEM, Out. de 1948)
Fonte: Permanência

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Consagração do gênero humano à Maria, mãe de todos os homens - Garrigou-Lagrange


A gravidade dos acontecimentos atuais, em particular os que acabam de ocorrer na Espanha, mostram que as almas fiéis devem, cada vez mais, recorrer a Deus pelos grandes mediadores que Ele nos deu por causa de nossa fraqueza.

Estes acontecimentos e sua atrocidade mostram de modo singularmente marcante o que acontece com os homens quando querem absolutamente viver sem Deus, quando querem organizar suas vidas sem Ele, longe Dele, contra Ele. Quando, ao invés de crer em Deus, de esperar em Deus, de amá-lo acima de tudo e de amar ao próximo Nele, queremos crer na humanidade, esperar nela, amá-la de modo exclusivamente terrestre, a humanidade não tarda a se apresentar a nós com suas falhas profundas, com suas feridas abertas: o orgulho da vida, a concupiscência da carne e dos olhos, e todas as brutalidades que a elas se seguem. Quando, ao invés de colocar seu fim último em Deus, que pode ser simultaneamente possuído por todos, como nós todos podemos possuir, sem nos prejudicar, a mesma verdade e a mesma virtude, coloca-se o fim último nos bens terrestres, não se tarda a perceber que estes bens nos dividem profundamente, pois a mesma casa e a mesma terra não podem pertencer simultaneamente e integralmente a vários. Quanto mais a vida se torna material, mais os apetites inferiores se inflamam sem qualquer subordinação a um amor superior, mais os conflitos entre os indivíduos, classes e povos se exasperam; finalmente, a terra se tornará um verdadeiro inferno.

O Senhor mostra assim aos homens o que eles podem sem Ele. Tudo isso constitui um singular comentário das palavras do Salvador: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5); “Quem não é comigo, é contra mim; e quem não junta comigo, desperdiça” (Mt 12, 30); “Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33); “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente vigia a sentinela.” (Mt 126, 1)

*

O perigo mais grave da hora atual é o comunismo internacional, de origem materialista, que nega a existência de Deus e a vida futura, que destrói a dignidade da pessoa humana, da família e da pátria. Os últimos acontecimentos de Espanha mostram como ele procura conquistar a Europa, e como ele quer preparar uma revolução mundial que será, como julgam, o fim do cristianismo e de toda religião, conforme o programa da liga dos “sem Deus”.

A fim de remediar tão grande mal, os melhores, os mais zelosos entre os católicos, nos povos divididos por tantos conflitos, sentem a necessidade de uma oração comum que reúna perante Deus as almas profundamente cristãs das diversas nações, para obter que o reino de Deus e de Cristo se estabeleça progressivamente no lugar do reino do orgulho e da concupiscência.

Nesta intenção, todos os dias se oferecem missas1 e a adoração do Santo Sacramento se difundiu em diversos países de modo tão largo e veloz que devemos ver nisso o fruto de uma grande graça de Deus2

Não se obterá a pacificação exterior do mundo senão pela pacificação interior das almas, reconduzindo-as a Deus, trabalhando para estabelecer nelas o reino de Cristo no mais íntimo de suas inteligências, de seus corações, de sua vontade ativa.

Para que as almas desviadas retornem Àquele que, único, pode salvá-las, importa recorrer à intercessão de Maria, medianeira universal e mãe de todos os homens. Dos pecadores que parecem ter se perdido para sempre, diz-se que é necessário confiá-los à Maria. Assim também com os povos cristãos que se desviam.

Toda a influência da bem-aventurada Virgem tem por fim conduzir as almas a seu Filho, como toda influência do Cristo, mediador universal, tem por fim conduzi-las a seu Pai.

A oração de Maria é universal no mais alto sentido da palavra. Como mostram suas ladainhas, recitadas por toda Igreja, no céu ela pede por nós, pelos pecadores dos quais ela é o refúgio, pelos aflitos dos quais é consolação, pelos fracos dos quais é socorro, pelas virgens que preserva, pelos apóstolos que ilumina, pelos mártires que sustenta. Ela intercede não apenas pelas almas individuais da terra e do purgatório, mas também pelas famílias e por todos os povos que devem viver sob a luz do Evangelho, sob a influência da Igreja.

Quando ainda estava na terra, a beatíssima Virgem Maria, aos pés da Cruz, oferecendo seu Filho por nossa salvação e unindo-se de modo muito íntimo ao seu sacrifício, nos mereceu, no sentido largo da palavra, tudo o que o próprio Cristo nos mereceu em sentido estrito. Após a morte e a ressurreição do Salvador, ela intercedia para que, pelos apóstolos, o reino de Deus e de Cristo Jesus chegasse até as extremidades do mundo. Ela sustentava sobrenaturalmente os apóstolos em seus trabalhos e em suas lutas e lhes obtinha graças elevadíssimas de luz, de amor e força. Seu zelo puríssimo sustentava o deles.

Desde que Maria foi assunta ao céu, sua intercessão não é senão mais poderosa, posto que mais iluminada, e procede de um amor de Deus e das almas que nada pode atenuar ou interromper, ainda que por um único instante.

O amor misericordioso de Maria por todos os homens ultrapassa o de todos os santos reunidos, assim como o poder de sua intercessão sobre o Coração de seu Filho.

*

É por isto que, de diversas partes, muitas almas espirituais, considerando os grandes perigos da hora presente, sentem a necessidade de recorrer, pela intercessão de Maria medianeira, ao Amor redentor de Cristo.

Em diversas partes, particularmente nos conventos de fervorosa vida contemplativa, conserva-se a memória de que muitos bispos franceses reunidos em Lourdes, no segundo Congresso mariano nacional, em 27 de julho de 1929, expressaram ao Soberano Pontífice o desejo de uma consagração do gênero humano ao Coração imaculado de Maria. E também que o Pe. Deschamps, S. J., em 1900, o cardeal Ricard, arcebispo de Paris, em 1906, o Pe. Le Doré, superior geral dos Eudistas, em 1908 e 1912, o Pe. Lintelo, S. J., em 1914, iniciaram petições ao Soberano Pontífice para obter a consagração universal do gênero humano ao Coração imaculado e misericordioso de Maria.

Por um ato coletivo, os bispos de França, no início da guerra, dezembro de 1914, consagraram a França à Maria. O cardeal Mercier, em 1915, na sua carta pastoral sobre Maria medianeira, saúda Maria, Mãe do gênero humano, como soberana do mundo. O Rvdo. P. Lucas, novo superior geral dos Eudistas e a Legião do Coração imaculado de Maria, aprovada por numerosos bispos, conseguiram em poucos meses mais de 300.000 assinaturas para apressar, por esta consagração, a paz de Cristo no reino de Cristo.

*

A força da qual temos necessidade, na confusão em que se encontra o mundo na hora atual, a intercessão de Maria, Mãe do gênero humano, nos conseguirá do Salvador.

Sua intercessão é poderosíssima contra o espírito de divisão que lança indivíduos, classes e povos uns contra os outros.

A Virgem dulcíssima é terrível contra o demônio e, no dizer do bem-aventurado Grignion de Montfort, aquele que é o orgulho personificado mais sofre por ser vencido pela humildade de Maria, do que por ser imediatamente esmagado pela Onipotência divina.

Se um pacto formal e plenamente consentido com o demônio pode trazer enormes conseqüências na vida de uma alma e mesmo perdê-la para sempre, que efeito espiritual não produzirá uma consagração a Maria, feita com verdadeiro espírito de fé e renovada a cada dia com sempre crescente fidelidade?

É preciso lembrar que, em dezembro de 1836, o venerável cura da igreja de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris, ao celebrar a missa no altar da santíssima virgem, o coração moído por pensamentos sobre a inutilidade de seu ministério, escutou estas palavra: “Consagra tua paróquia ao santíssimo e imaculado Coração de Maria”. Feita a consagração, a paróquia transformou-se.

No mesmo espírito, bispos italianos pediram a Leão XIII a autorização de consagrar suas dioceses ao Coração puríssimo de Maria e, na França, o cardeal Couillé, Mons. Touchet e Mons. Dadolle proclamaram Maria Rainha do universo. As ladainhas do Loreto, que há muito a invocam como Rainha dos anjos e de todos os santos, contém hoje, desde a última guerra, a invocação: Regina pacis, ora pro nobis.

A súplica de Maria por nós é a de uma Mãe sapientíssima, amorosíssima, fortíssima, que vela incessantemente sobre todos seus filhos, sobre todos os homens chamados a receber os frutos da Redenção.

Quem faz a experiência de consagrar todos os dias a Maria todos seus trabalhos, obras espirituais e empresas, encontra fé e confiança quando tudo parece perdido.

É o que o bem-aventurado Grignion de Montfort mostra admiravelmente no seu Tratado da verdadeira devoção à Santa Virgem, e no resumo que dele sob o título: O Segredo de Maria.

Ora, se a consagração individual de uma alma a Maria lhe obtém diariamente tantas graças de luz, direção, amor e força; se Maria nos faz assim entrar cada dia mais profundamente no mistério da Comunhão dos santos, quais não seriam os frutos de uma consagração do gênero humano feito ao Salvador pela própria Maria, à rogos do Pai comum dos fiéis, o Pastor supremo? Qual não seria o efeito de uma consagração assim feita, sobretudo se os fiéis de diferentes povos se unissem e vivessem dela, numa prece fervorosa, renovada freqüentemente durante a missa?

*

Como escrevia a madre Maria de Jesus, fundadora da Sociedades das Filhas do Coração de Jesus3: “Posto que o inferno quer banir Jesus Cristo e sua Igreja das almas e das sociedades, é mais que nunca hora de elevar as mãos suplicantes à incomparável Virgem, por quem o Pai Celeste deu Jesus Cristo ao mundo; a fim de que esta doce Mãe do Salvador, devolvendo, por assim dizer, Jesus às almas, lhes devolva a vida perdida; que esta poderosa Protetora da Igreja, “terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 3), triunfe sobre seus inimigos e que esta gloriosa Rainha da hierarquia faça cair sobre todos os membros do Clero católico bênçãos tais do Coração de Jesus que lhes conservem sua coragem e lhes aperfeiçoem no meio das tormentas de nossa triste época, e lhes façam brilhar como diamantes sem mancha sobre a admirável túnica da Igreja.”

A mesma serva de Deus acrescenta um pouco mais adiante4 estas palavras que tanto convém ao nosso tempo:

“Não vivemos por nós, é preciso tudo enxergar nos desígnios de Deus; nossas dores atuais – ainda que cheguem ao cúmulo e que nos sacrifique nesse desastre – conquistam e preparam os triunfos futuros e certos da Igreja... A Igreja segue assim de luta em luta, de vitória em vitória, uma sucedendo a outra até a Eternidade, que será o triunfo definitivo.

“Foi preciso que Jesus sofresse e que assim entrasse na “sua glória” (Lc 24, 26); é preciso que a Igreja e as almas perfaçam o mesmo caminho. A Igreja não dura apenas um dia; quando os mártires caiam como flocos de neve no inverno, não se podia pensar que tudo estava perdido? Não, o sangue deles preparava a vitória que estava por vir.

“Como uma Esposa que se prepara para seu Esposo, a Igreja marcha através dos séculos rumo à perfeição do céu; ela se embeleza mais e mais; ela está pronta, mas continuará se embelezando até o dia das núpcias eternas.

“Não temais, pois, pelos perigos da Igreja: não é a Igreja que está em perigo; ela tem a palavra de Jesus Cristo e nada a abalará... As portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

*

No difícil período que atravessamos, a Igreja tem necessidade de almas muito generosas, verdadeiramente santas. É Maria, Mãe da divina graça, Mãe puríssima, Virgem prudentíssima e forte, que as formará. Por toda parte, o Senhor sugere a almas interiores uma oração cuja forma varia, mas cuja substância é a mesma: “Neste tempo em que um espírito de orgulho inflado até o ateísmo procura se espalhar por todos os povos, Senhor, sede como a alma de minha alma, dai-me uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e de vossos santos aniquilamentos, remédio contra todo orgulho. Dai-me o desejo sincero de participar, na medida desejada para mim pela Providência, nesses salutares aniquilamentos, e fazei-me encontrar neste desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria que é como o prelúdio ou o gosto das alegrias da eternidade.”

Para ingressar assim na profundidade do mistério da Redenção, é preciso que Maria, que nele ingressou mais que qualquer outra criatura, nos instrua silenciosamente aos pés da cruz e nos faça descobrir na letra do Evangelho o espírito do qual ela mesmo tão profundamente viveu.

*

Que a Mãe do Salvador digne-se, por sua oração, colocar as almas fiéis de diferentes povos sob a luz desta palavra do Cristo: “Eu dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um, como também nós somos um” (Jo 17, 22).

“É da ordem das coisas, escrevia o cardeal Mercier, que as crianças exprimam a seu Pai seus mais íntimos desejos.” Podemos esperar que um dia, quando a hora providencial chegar, S. S. Pio XI, chamado o Papa das Missões, tomando em consideração os votos de bispos e fiéis, consagrará o gênero humano ao Coração imaculado e misericordioso de Maria, para que ela mesma, mais instantemente, peça por nos a seu Filho. Isto seria uma nova afirmação da mediação universal da Santíssima Virgem.

A intercessão mais poderosa ao Coração de Jesus é a da santa Mãe, que é também a Mãe de todos os homens, e que mais que ninguém depois de seu Filho conhece as imensas necessidades espirituais da hora presente.

Dirijamo-nos a ela com a maior confiança; ela foi chamada “a esperança dos desesperados”, e dirigindo-se a ela como à melhor das Mães e à mais iluminada, iremos à Jesus como ao nosso único e misericordioso Salvador.

Roma, Angélico.


1.O culto perpétuo das missas é mantido em particular pela União Eucarística, da qual a revista La Vie Spirituelle falou muitas vezes. Ver em particular La Vie Spirituelle, outubro de 1934 e março 1935, pág. 314.
2.Um movimento neste sentido, começado no Rio de Janeiro em 1935, atingiu rapidamente mais de oito milhões de horas de adoração para o ano de 1935.
3.Pensées de la servante de Dieu, Mère Marie de Jesus, 1841-1884, Roma, 1918, pág. 43.
4.Ibidem, pág. 50.

Fonte: Permanência

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A plenitude inicial de graças em Maria - Reginald Garrigou-Lagrange O.P.

Para começar o blog, eu não podia deixar de publicar este artigo, como homenagem de Amor filial à Minha Mãe, Maria Imaculada.
Sejam sempre louvados Jesus e Maria!


***
A plenitude inicial de graças em Maria - Reginald Garrigou-Lagrange O.P.

A graça habitual que recebeu a bem-aventurada Virgem Maria no instante mesmo da criação de sua santa alma foi uma plenitude, na qual já se verificava aquilo que viria dizer o anjo no dia da Anunciação: « Ave Maria, cheia de graça ». É o que afirma, com a tradição, Pio IX, ao definir o dogma da Imaculada Conceição.

Ele diz mesmo que Deus, desde o primeiro instante, « de preferência a qualquer outra criatura (prae creaturis universis), fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que a todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade »1.

Perfeição desta plenitude inicial

Poderíamos citar aqui, sobre este ponto, inúmeros testemunhos da tradição2 Cf. Terrien, La Mère de Dieu, t. II, 1, VII, pags. 191-234. – De la Broise, S. J., La Sainte Vierge, cap. II e XII, e Dict. Apol., art. Marie, col. 207, ss. . Insistiremos sobretudo sobre as razões teológicas comumente invocadas pelos Padres e teólogos.

Santo Tomás3 explica a razão desta plenitude inicial de graças, quando diz: « quanto mais nos aproximamos de um princípio (de verdade e de vida), mais participamos de seus efeitos. É por isso que Denis afirma (De cœlesti hierarchia, cap. 4) que os anjos, que estão mais pertos de Deus que os homens, participam bem mais de seus favores. Ora, Cristo é o princípio da vida da graça; como Deus, é causa principal da graça e, como homem (após a ter merecido para nós), no-la transmite, pois sua humanidade é como um instrumento sempre unido à divindade: « a graça e a verdade nos vieram por meio dele » (Jo 1, 17). A bem-aventurada Virgem Maria, estando mais próxima de Cristo do que qualquer outra pessoa, uma vez que Cristo recebeu dela sua humanidade, recebeu dele, portanto, uma plenitude de graças que ultrapassa a das outras criaturas ».

S. João Batista e Jeremias foram também, como testemunha a Escritura, santificados no seio de suas mães, mas não foram preservados do pecado original; Maria, desde o primeiro instante, recebeu a graça santificante a um grau muito superior ao deles, com o especial privilégio de ser preservada para sempre de todo pecado, mesmo venial, o que não se afirma de nenhum santo4.

Na sua explicação da Ave Maria5, santo Tomás descreve a plenitude de graça em Maria (o que já se verifica na plenitude inicial), da seguinte maneira:

Enquanto que os anjos não manifestam respeito pelos homens, uma vez que lhes são superiores, como espíritos puros e por viverem sobrenaturalmente na santa familiaridade de Deus, o arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, mostra-se cheio de respeito e veneração por ela, pois compreendeu que ela o ultrapassava pela plenitude da graça, pela intimidade divina com o Altíssimo e por uma perfeita pureza.

Com efeito, ela tinha recebido a plenitude de graça à um tríplice ponto de vista: para evitar todo pecado, por menor que fosse, e praticar de modo eminente todas as virtudes; para que esta plenitude transbordasse de sua alma sobre seu corpo e para que ela concebesse o Filho de Deus feito homem; para que esta plenitude transbordasse também de sua alma sobre todos os homens6e nos ajudasse na prática de todas as virtudes. 

Ademais, ela ultrapassava os anjos por sua santa familiaridade com o Altíssimo; por isso, o arcanjo Gabriel disse ao saudá-la: «O Senhor é convosco », como se dissesse: sois mais íntima de Deus do que eu, pois Ele se tornará seu Filho, enquanto que não passo de seu servidor. De fato, como Mãe de Deus, Maria tem uma intimidade maior do que os anjos com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Enfim, ela ultrapassava os anjos por sua pureza, mesmo sendo estes últimos puros espíritos, pois ela não era somente puríssima em si mesma, mas já transmitia pureza aos outros. Não somente estava isenta do pecado original7 e de todo pecado, quer mortal, quer venial, mas também da maldição devida ao pecado: « darás à luz com dor… e retornarás ao pó » (Gn 3, 16, 19). Ela conceberá o Filho de Deus sem perder a virgindade, ela o carregará em seu seio num santo recolhimento, dará à luz na alegria, será preservada da corrupção do sepulcro e associada pela Assunção à Ascensão do Salvador.  

Ela já é bendita entre todas as mulheres, posto que só ela, com seu Filho e por Ele, levantará a maldição que pesava sobre a raça humana, e nos trará a benção abrindo-nos as portas do céu. É por isso que é chamada Estrela do mar, pois dirige os cristãos ao porto da eternidade. 

O anjo lhe dirá, « bendito o fruto de vosso ventre ». Com efeito, enquanto o pecador procura, naquilo que deseja, o que não pode encontrar, o justo encontra tudo no que deseja de modo santo. Desde esse ponto de vista, o fruto do ventre de Maria será três vezes bendito.

Eva desejou o fruto proibido para ter « a ciência do bem e do mal » e saber viver só, sem a necessidade de obedecer; ela foi seduzida pela mentira: « sereis como deuses »; e longe de tornar-se semelhante à Deus, afastou-se e desviou-se dele. Ao contrário, Maria encontrou tudo no fruto bendito de seu ventre; nele, encontrou o próprio Deus e faz com que o encontremos.

Eva, cedendo a tentação, cobiçou o deleite e encontrou a dor. Ao contrário, Maria encontrou e nos leva a encontrar a alegria e a salvação em seu divino Filho.

Enfim, o fruto desejado por Eva não tinha senão uma beleza sensível, enquanto que o fruto do ventre de Maria é o esplendor da glória espiritual e eterna do Pai. A Virgem, ela mesma, é bendita; porém, mais ainda o é seu Filho, que à todos homens leva a salvação e a bem-aventurança. 

Assim fala Santo Tomás da plenitude de graça em Maria em seu Comentário da Ave Maria; ele tem em mente sobretudo a plenitude realizada no dia da Anunciação, mas isto também já se aplica, em certa medida, à plenitude inicial, assim como aquilo que se diz do rio, se aplica à fonte do qual procede. 

Comparação da graça inicial de Maria à dos santos 

Questionou-se se a graça inicial de Maria foi maior que a graça final de qualquer anjo ou homem, e mesmo se foi maior que agraça final de todos os anjos e santos juntos. Esta questão foi levantada não à respeito da graça consumada no céu, mas daquela que precede imediatamente a entrada no céu8.

À primeira parte desta questão, os teólogos respondem comumente de modo afirmativo; é particularmente a opinião de S. João Damasceno9, de Suarez10, de Justin de Miéchow, O.P.11, de Ch. Veja12, de Contenson13, de Santo Afonso14, do Pe.Terrien15, Godts, Hugon, Merkelbach etc.

Hoje, todas as obras de Mariologia são unânimes sobre este ponto e consideram a coisa como certa; isto é mesmo expresso por Pio IX na Bula Ineffabilis Deus, na passagem que acima citamos.

A razão principal é tomada da Maternidade divina, motivo de todos os privilégios de Maria, e esta razão se apresenta sob dois aspectos, conforme consideremos o fim ao qual foi nela ordenada a primeira graça ou o amor divino que foi causa desta graça. 

A primeira graça foi, com efeito, concedida a Maria como uma digna preparação à maternidade divina, ou para prepará-la para ser a digna Mãe do Salvador, cf. Santo Tomás (q. 27, a. 5, ad 2). Ora, a graça, mesmo consumada, dos outros santos, não será ainda uma digna preparação à maternidade divina, que pertence à ordem hipostática, ou da união ao Verbo. Portanto, a primeira graça em Maria já ultrapassa a graça consumada dos outros santos. 

Do mesmo modo, piedosos autores exprimem esta verdade aplicando esta palavra do Salmo 86: « Fundamenta ejus in montibus sanctis » e eles a entendem assim: o cume da perfeição dos outros santos não é ainda o início da santidade de Maria. 

Esta mesma razão nos aparece sob um outro aspecto se consideramos o amor incriado de Deus pela Santa Virgem: como a graça é o efeito do amor, ato de Deus que nos torna amáveis à seus olhos, tais como filhos adotivos, recebe-se a graça tanto mais abundantemente quanto mais se é amado por Deus. Ora, Maria, desde o primeiro instante, em sua qualidade de futura Mãe de Deus, foi mais amada que qualquer outro santo, mesmo chegado ao fim de sua vida, e mais que qualquer anjo. Ela, portanto, recebeu, desde o primeiro instante, uma graça superior.

Disso não há nenhuma dúvida e não mais se discute hoje em dia. 

A primeira graça em Maria foi superior à graça final de todos os santos e anjos juntos? 

Alguns teólogos o negaram, tanto entre os antigos como entre os modernos16

No entanto, é ao menos muito provável, senão certo17, segundo a grande maioria dos teólogos, de modo que deve-se responder afirmativamente com Ch. Vega, Contenson, santo Afonso, Godts, Monsabré, Tanquerey, Billot, Sinibaldi, Hugon, L. Janssens, Merkelbach etc.

Antes de mais nada, há um argumento de autoridade.

Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, favorece manifestamente esta doutrina, quando diz, na passagem já citada: « Deus ab initio,… Unigenito Filio suo Matrem… elegit atque ordinavit, tantoque prae creaturis universis est prosecutus amore, ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit. Quapropter, illam longe ante omnes angelicos Spiritus, cunctosque sanctos caelestium omnium charismatum copia de thesauro Divinitatis deprompta ita mirifice cumulavit, ut… eam innocentiae et sanctitatis plenitudinem prae se ferret, et quae major sub Deo nullatenus intelligitur, et quam praeter Deum nemo assequi cogitando potest.»18

Segundo o sentido óbvio, todas estas expressões, especialmente esta: « cunctos sanctos », significam que a graça em Maria, desde o primeiro instante, ao qual se refere o Papa, ultrapassava a de todos os santos juntos; se Pio IX quisesse dizer que a graça em Maria ultrapassava a de qualquer santo, teria escrito « longe ante quemlibet angelum et sanctum » e não « longe ante omnes angelicos spiritus, cunctosque sanctus ». Também não teria dito que Deus a amou mais que a todas as criaturas « prae creaturis universis » e que foi nela que mais se deleitou, « ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit ».

Não se pode dizer que não se refira ao primeiro instante, pois Pio IX, imediatamente após a passagem citada, acrescenta: « Decebat omnino ut Beatissima Virgo Maria perfectissimae sanctitatis splendoribus semper ornata fulgeret ».

Um pouco mais adiante, na mesma bula, diz o Papa que, segundo os Padres da Igreja, Maria é superior pela graça aos querubins, aos serafins e à toda a milícia angélica « omni exercitu angelorum », ou seja, à todos os anjos juntos. Quanto a isso, todos concordam se se trata de Maria no céu, mas é preciso lembrar que o grau de glória celeste é proporcional ao grau de caridade no momento da morte e que este em Maria era, ele próprio, proporcional à dignidade de Mãe de Deus, à qual a Santa Virgem foi preparada desde o primeiro instante.

A este argumento de autoridade, tirado da bula Ineffabilis Deus, é necessário acrescentar duas razões teológicas que precisam aquelas que expusemos um pouco acima e que derivam da maternidade divina, conforme consideremos o fim ao qual foi ordenado a primeira graça ou o amor incriado, que foi sua causa.

Para bem compreender estas duas razões teológicas, é preciso, antes de mais nada, notar que, ainda que pertença a graça à ordem da qualidade e não à da quantidade, do fato de que a plenitude inicial em Maria ultrapasse a graça consumada do maior dos santos, não é imediatamente evidente para todos que ultrapasse a graça de todos os santos reunidos. A visão da águia, como qualidade ou potência, ultrapassa a do homem que tiver os melhores olhos, mas ela não lhe permite, entretanto, ver o que vêem o conjunto dos homens espalhados pela superfície da terra. É verdade que entra aqui uma questão de quantidade ou de extensão e distância, o que não acontece quando se trata de uma pura qualidade imaterial. Convém, contudo, acrescentar aqui um novo esclarecimento; e este esclarecimento pode conduzir não apenas à uma probabilidade, mas à certeza.

1o. A primeira graça, em Maria, posto que a preparava para ser a digna Mãe de Deus, devia já ser proporcionada, ao menos de modo distante, à maternidade divina. Ora, a graça final de todos os santos, mesmo tomados juntos, ainda não é proporcionada à dignidade da Mãe de Deus, que é de ordem hipostática, como nós já vimos. Portanto, a graça final de todos os santos juntos é inferior à primeira graça recebida por Maria.

Este argumento parece em si mesmo certo, ainda que alguns teólogos não tenham compreendido todo seu alcance.

Objetou-se: a primeira graça em Maria ainda não é uma preparação próxima à maternidade divina; logo, a prova não é conclusiva. 

Muitos teólogos responderam: ainda que a primeira graça em Maria não seja uma preparação próxima à maternidade divina, ela é, contudo, uma preparação digna e proporcionada, conforme a expressão de santo Tomás, IIIa, q. 27, a. 5 ad 2m: « prima quidem (perfectio gratiae) quasi dispositiva, per quam B. Maria Virgo reddebatur idonea ad hoc quod esset mater Christi ». Ora, a graça consumada de todos os santos juntos não é ainda proporcionada à maternidade divina, que é um privilégio único no mundo e de ordem hipostática. A prova conserva, portanto, seu valor. 

2° A pessoa que é mais amada por Deus que todas as criaturas juntas, recebe uma graça maior do que recebem todas as criaturas juntas, pois a graça é efeito do amor incriado e lhe é proporcionada. Como diz S. Tomás, Ia. q. 20, a. 4: « Deus ama mais este que aquele, na medida em que quer para este um bem superior, pois a vontade divina é a causa do bem que existe nas criaturas. » Ora, desde toda eternidade, Deus amou Maria mais que todas criaturas juntas, como aquela que devia preparar desde o primeiro instante de sua conceição para ser a digna Mãe do Salvador. Conforme a expressão de Bossuet: « Ele sempre amou Maria como mãe, e a considerou como tal desde o primeiro momento em que foi concebida ».

Isso não exclui, por outro lado, o progresso de santidade ou o crescimento da graça em Maria, pois esta, sendo uma participação da natureza divina, pode sempre aumentar e prossegue sempre finita; mesmo a plenitude final de graça em Maria é limitado, ainda que transborde sobre todas as almas.

À estas duas razões teológicas relativas à maternidade divina, acrescenta-se uma importante confirmação que aparecera mais e mais ao se falar da mediação universal de Maria. Ela podia, com efeito, desde aqui em baixo e desde que pode merecer e rogar, mais obter por seus méritos e suas orações que todos os santos juntos, pois eles nada obtém sem a mediação universal da Santa Virgem, que é como o aqueduto das graças ou, no corpo místico, como o pescoço pelo qual os membros se unem à cabeça. Resumindo, Maria, desde que pode merecer e rogar, podia, sem os santos, obter mais que todos os santos juntos sem ela. Ora, o grau do mérito corresponde ao grau da caridade e da graça santificante. Maria, portanto, recebeu desde o início de sua vida um grau de graça superior àquele que possuíam todos os santos e anjos juntos, imediatamente antes de sua entrada no céu.

Há outras confirmações indiretas ou analogias mais ou menos distantes: uma pedra preciosa, como o diamante, vale mais que um monte de outras pedras reunidas. Do mesmo modo, na ordem espiritual, um santo como o Cura d'Ars conseguia mais com suas orações e méritos que todos seus paroquianos juntos. Um fundador de ordem, como São Bento, por si só, pela graça divina que recebeu para sua obra, vale mais que todos seus primeiros companheiros, pois todos reunidos não poderiam ter criado a ordem que ele criou, enquanto que ele teria podido encontrar outros irmãos como aqueles, que o seguiriam. Já se fez ainda outras analogias: a inteligência de um arcanjo ultrapassa a de todos os anjos inferiores a ele em conjunto. O valor intelectual de um Santo Tomás ultrapassa o de todos seus comentadores juntos. O poder de um rei é superior não apenas ao de seu primeiro ministro, mas ao de todos seus ministros em conjunto. 

Se os antigos teólogos não trataram explicitamente desta questão, assim o o foi porque, muito provavelmente, a solução lhes parecesse óbvia. Diziam eles, por exemplo, ao final do tratado da graça, para mostrar a sua dignidade: enquanto que uma moeda de dez francos não vale mais que dez de um franco, uma graça ou uma caridade de dez talentos vale muito mais que dez caridades de um só talento19; é por isso que o demônio procurar manter na mediocridade as almas que, pela vocação sacerdotal ou religiosa, são chamadas para uma vida muito elevada; ele quer impedir o pleno desenvolvimento da caridade, que faria bem muito maior que uma caridade inferior simplesmente multiplicada no seu grau mais comum, que vem acompanhada de tibieza.

É preciso aqui prestar atenção à ordem da pura qualidade imaterial que é aquela da graça santificante. Se a visão da águia não ultrapassa a de todos os homens reunidos, é porque entra aqui uma questão de quantidade ou de distância local, o fato que os homens espalhados em diferentes regiões na superfície da terra podem ver o que a águia, posta sobre um cume dos Alpes, não pode. Ocorre diferentemente na ordem da pura qualidade.

Se isto é verdadeiro, não é de se duvidar que Maria, pela primeira graça que já a dispunha à maternidade divina, valia mais aos olhos de Deus que todos os apóstolos, mártires, confessores e virgens reunidas, que existiram e que hão de existir na Igreja, mais que todas as almas e que todos os anjos criados desde a origem do mundo.

Se a arte humana faz maravilhas de precisão e beleza, o que não pode fazer a arte divina na criatura de sua predileção, da qual se diz: « Elegit eam Deus et præelegit eam » e que foi engrandecida, diz a liturgia, acima de todos os coros dos anjos. A primeira graça recebida por ela foi já uma digna preparação à maternidade divina e à sua glória excepcional, que vem imediatamente abaixo da de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela sofreu, ademais, como ele, à proporção, pois devia ser vítima com ele, para ser também vitoriosa com ele, e por ele.

Estas razões teológicas já nos permitem entrever toda a elevação e a riqueza da plenitude inicial de graças em Maria. Se as obras-primas da literatura clássica, grega, latina ou francesa, contém muito mais beleza do que se imagina numa primeira leitura, quando as lemos entre nossos quinze e vinte anos; se estas belezas não nos aparecem senão quando retomamos a leitura destas obras numa idade um pouco mais avançada; se ocorre igualmente com escritos de um santo Agostinho ou santo Tomás, que pensar das belezas nas obras primas do próprio Deus, naquelas obras compostas imediatamente por ele e, em particular, na obra-prima espiritual, quanto a natureza e quanto a graça, que é a santíssima alma de Maria, Mãe de Deus. Somos, de início, obrigados a afirmar a riqueza da plenitude inicial de graças nela por força de sua beleza entrevista; ocorre, em seguida, de perguntarmo-nos se não vai nisso exagero, se não transformamos uma probabilidade em certeza; finalmente, um estudo aprofundado nos reconduz à primeira afirmação, mas com conhecimento de causa, não mais apenas porque é belo, mais porque é verdadeiro, e porque há conveniências não apenas teóricas, mas que efetivamente motivaram a escolha divina, nas quais se repousou a vontade divina.

(La vie spirituelle n° 253, maio de 1941)



1.Ineffabilis Deus: « Ineffabilis Deus… ab initio et ante sæcula unigenito Filio suo Matrem, ex qua caro factus in beata temporum plenitudine nasceretur elegit atque ordinavit, tantoque prae creaturis universis est prosecutus aurore ; ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit. Quapropter illam longe ante omnes angelicos Spiritus, cunctosque Sanctos cælestium omnium charismatum copia de thesauro Divinitatis, deprompta ita mirifice cumulavit, ut ipsa ab omni prorsus peccati labe semper libera, ac tota pulchra et perfecta eam innocentia et sanctitatis plenitudinem præ se ferret, qua major sub Deo nullatenus intelligitur, et quam præter Deum nemo assequi cogitando potest ». Deus inefável… Assim Deus, desde o princípio e antes dos séculos, escolheu e pré-ordenou para seu Filho uma Mãe, na qual Ele se encarnaria, e da qual, depois, na feliz plenitude dos tempos, nasceria; e, de preferência a qualquer outra criatura, fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade, que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender. » [N. da P.] Para a íntegra da Bula:http://www.capela.org.br/Magisterio/Pio%20IX/ineffabilis8dez.htm.
2.IIIa, q. 27, a. 5.
3.IIIa, q. 27, a. 5.
4.Ibidem, a. 6, ad 1m.
5.« Expositio super salutatione angelica », opúsculo escrito cerca de 1272-1273. [N. da P.] Leia a tradução para o português no site da Permanência:www.permanencia.org.br/tomas/Sermoes.pdf
6.Os teólogos dizem comumente hoje em dia que Maria nos mereceu de um mérito de conveniência (de congrue) tudo o que Cristo nos mereceu em estrita justiça (de condigno).
7.Cf. a recente edição crítica do opúsculo de santo Tomás que aqui citamos, edição publicada por J.-F. Rossi, C. M., « S. Thomae Aquinatis Expositio Salutionis Angelicæ » (Divus Thomas, Placentiae, 1931, p. 445-479), lê-se nesse passo no original: « Ipsa enim (beata Virgo) purissima fuit et quantum ad culpam, quia nec originale, nec mortale, nec veniale peccatum incurrit… ». Vê-se por este texto que santo Tomás, no fim de sua vida (1272-1273) voltava a afirmar, como o havia afirmado no primeiro período de sua carreira teológica, que Maria fora preservada do pecado original.« Talis fuit puritas beatæ Virginis, quæ a peccato originali et actuali immunis fuit » (I Sent., Q. 44, q. 1, a. 3, ad 3m). O que havia afirmado inicialmente no arroubo de sua piedade, reafirmava, após um período de hesitação, por um julgamento mais maduro e embasado. Não é incomum, neste tipo de questões, que o teólogo afirme inicialmente um privilégio enxergando apenas sua conveniência, alguma coisa de belo, e, finalmente, o reafirme por compreender sua veracidade. G. J.-M. Vosté, O. P., Commentarius in III P., in q. 27, a. 2, Rome, 2° éd..1940.
8.Os teólogos admitem geralmente que a graça consumada de Maria no céu ultrapassa a glória de todos os santos e anjos reunidos; e que, pelo menos a graça final de Maria, no momento de sua morte, ou mesmo no momento da Encarnação do Verbo, ultrapasse a graça final de todos os santos reunidos no término de suas vidas terrestres. Aqui, nós nos perguntamos se a plenitude inicial de Maria já tinha este valor comparada à graça dos santos. Sabemos, por outro lado, que no que toca os eleitos, o grau de glória corresponde ao grau de graça e de caridade que eles tinham antes da entrada no céu.
9.Orat. De Nativ. Virg. P. G. XCVI, 648, ss.
10.« De Mystiriis vitae Christi », disp. IV, sect. I.
11.« Collat. super Litanias B. Mariæ Virg. », col. 134.
12.« Theologia Mariana », n° 1150 ss.
13.« Theolog. Mentis et cordis », 1, 10, diss. VI, c. 1.
14.« Glorie di Maria », II, P., disc. 2.
15.« La Mère de Dieu », t. 1.
16.Théophile Raynaud, Terrien et Lépicier somente respondem afirmativamente quando se trata da plenitude final de graça em Maria, no fim de sua vida mortal. Outros, como Valentia, consentem se se trata da plenitude de graça da segunda santificação, no momento da Encarnação do Verbo; mas, com santo Afonso, « Li Glorie di Maria », II, disc. 2, p. 1, a grande maioria de teólogos modernos o admitem quanto a plenitude inicial. As duas primeiras afirmações são certas, a terceira, relativa à plenitude inicial, é pelo menos muito provável, como bem o mostra o Pe. Merkelbach. « Mariologia » 1939, p. 178-181.
17.Nós consideramos pessoalmente a coisa como certa, por causa dos princípios que iremos expor ao fim do presente artigo, princípios comumente admitidos pelos antigos teólogos.
18.A tradução deste importante texto foi dada na nota 1, para onde remetemos o leitor.
19.Cf. « Salmanticenses », Cursus theol., de Caritate, disp. V, dub. III, § 7, n° 76, 80, 85, 93, 117.


Fonte: Permanência