sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Consagração do gênero humano à Maria, mãe de todos os homens - Garrigou-Lagrange


A gravidade dos acontecimentos atuais, em particular os que acabam de ocorrer na Espanha, mostram que as almas fiéis devem, cada vez mais, recorrer a Deus pelos grandes mediadores que Ele nos deu por causa de nossa fraqueza.

Estes acontecimentos e sua atrocidade mostram de modo singularmente marcante o que acontece com os homens quando querem absolutamente viver sem Deus, quando querem organizar suas vidas sem Ele, longe Dele, contra Ele. Quando, ao invés de crer em Deus, de esperar em Deus, de amá-lo acima de tudo e de amar ao próximo Nele, queremos crer na humanidade, esperar nela, amá-la de modo exclusivamente terrestre, a humanidade não tarda a se apresentar a nós com suas falhas profundas, com suas feridas abertas: o orgulho da vida, a concupiscência da carne e dos olhos, e todas as brutalidades que a elas se seguem. Quando, ao invés de colocar seu fim último em Deus, que pode ser simultaneamente possuído por todos, como nós todos podemos possuir, sem nos prejudicar, a mesma verdade e a mesma virtude, coloca-se o fim último nos bens terrestres, não se tarda a perceber que estes bens nos dividem profundamente, pois a mesma casa e a mesma terra não podem pertencer simultaneamente e integralmente a vários. Quanto mais a vida se torna material, mais os apetites inferiores se inflamam sem qualquer subordinação a um amor superior, mais os conflitos entre os indivíduos, classes e povos se exasperam; finalmente, a terra se tornará um verdadeiro inferno.

O Senhor mostra assim aos homens o que eles podem sem Ele. Tudo isso constitui um singular comentário das palavras do Salvador: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5); “Quem não é comigo, é contra mim; e quem não junta comigo, desperdiça” (Mt 12, 30); “Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33); “Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente vigia a sentinela.” (Mt 126, 1)

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O perigo mais grave da hora atual é o comunismo internacional, de origem materialista, que nega a existência de Deus e a vida futura, que destrói a dignidade da pessoa humana, da família e da pátria. Os últimos acontecimentos de Espanha mostram como ele procura conquistar a Europa, e como ele quer preparar uma revolução mundial que será, como julgam, o fim do cristianismo e de toda religião, conforme o programa da liga dos “sem Deus”.

A fim de remediar tão grande mal, os melhores, os mais zelosos entre os católicos, nos povos divididos por tantos conflitos, sentem a necessidade de uma oração comum que reúna perante Deus as almas profundamente cristãs das diversas nações, para obter que o reino de Deus e de Cristo se estabeleça progressivamente no lugar do reino do orgulho e da concupiscência.

Nesta intenção, todos os dias se oferecem missas1 e a adoração do Santo Sacramento se difundiu em diversos países de modo tão largo e veloz que devemos ver nisso o fruto de uma grande graça de Deus2

Não se obterá a pacificação exterior do mundo senão pela pacificação interior das almas, reconduzindo-as a Deus, trabalhando para estabelecer nelas o reino de Cristo no mais íntimo de suas inteligências, de seus corações, de sua vontade ativa.

Para que as almas desviadas retornem Àquele que, único, pode salvá-las, importa recorrer à intercessão de Maria, medianeira universal e mãe de todos os homens. Dos pecadores que parecem ter se perdido para sempre, diz-se que é necessário confiá-los à Maria. Assim também com os povos cristãos que se desviam.

Toda a influência da bem-aventurada Virgem tem por fim conduzir as almas a seu Filho, como toda influência do Cristo, mediador universal, tem por fim conduzi-las a seu Pai.

A oração de Maria é universal no mais alto sentido da palavra. Como mostram suas ladainhas, recitadas por toda Igreja, no céu ela pede por nós, pelos pecadores dos quais ela é o refúgio, pelos aflitos dos quais é consolação, pelos fracos dos quais é socorro, pelas virgens que preserva, pelos apóstolos que ilumina, pelos mártires que sustenta. Ela intercede não apenas pelas almas individuais da terra e do purgatório, mas também pelas famílias e por todos os povos que devem viver sob a luz do Evangelho, sob a influência da Igreja.

Quando ainda estava na terra, a beatíssima Virgem Maria, aos pés da Cruz, oferecendo seu Filho por nossa salvação e unindo-se de modo muito íntimo ao seu sacrifício, nos mereceu, no sentido largo da palavra, tudo o que o próprio Cristo nos mereceu em sentido estrito. Após a morte e a ressurreição do Salvador, ela intercedia para que, pelos apóstolos, o reino de Deus e de Cristo Jesus chegasse até as extremidades do mundo. Ela sustentava sobrenaturalmente os apóstolos em seus trabalhos e em suas lutas e lhes obtinha graças elevadíssimas de luz, de amor e força. Seu zelo puríssimo sustentava o deles.

Desde que Maria foi assunta ao céu, sua intercessão não é senão mais poderosa, posto que mais iluminada, e procede de um amor de Deus e das almas que nada pode atenuar ou interromper, ainda que por um único instante.

O amor misericordioso de Maria por todos os homens ultrapassa o de todos os santos reunidos, assim como o poder de sua intercessão sobre o Coração de seu Filho.

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É por isto que, de diversas partes, muitas almas espirituais, considerando os grandes perigos da hora presente, sentem a necessidade de recorrer, pela intercessão de Maria medianeira, ao Amor redentor de Cristo.

Em diversas partes, particularmente nos conventos de fervorosa vida contemplativa, conserva-se a memória de que muitos bispos franceses reunidos em Lourdes, no segundo Congresso mariano nacional, em 27 de julho de 1929, expressaram ao Soberano Pontífice o desejo de uma consagração do gênero humano ao Coração imaculado de Maria. E também que o Pe. Deschamps, S. J., em 1900, o cardeal Ricard, arcebispo de Paris, em 1906, o Pe. Le Doré, superior geral dos Eudistas, em 1908 e 1912, o Pe. Lintelo, S. J., em 1914, iniciaram petições ao Soberano Pontífice para obter a consagração universal do gênero humano ao Coração imaculado e misericordioso de Maria.

Por um ato coletivo, os bispos de França, no início da guerra, dezembro de 1914, consagraram a França à Maria. O cardeal Mercier, em 1915, na sua carta pastoral sobre Maria medianeira, saúda Maria, Mãe do gênero humano, como soberana do mundo. O Rvdo. P. Lucas, novo superior geral dos Eudistas e a Legião do Coração imaculado de Maria, aprovada por numerosos bispos, conseguiram em poucos meses mais de 300.000 assinaturas para apressar, por esta consagração, a paz de Cristo no reino de Cristo.

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A força da qual temos necessidade, na confusão em que se encontra o mundo na hora atual, a intercessão de Maria, Mãe do gênero humano, nos conseguirá do Salvador.

Sua intercessão é poderosíssima contra o espírito de divisão que lança indivíduos, classes e povos uns contra os outros.

A Virgem dulcíssima é terrível contra o demônio e, no dizer do bem-aventurado Grignion de Montfort, aquele que é o orgulho personificado mais sofre por ser vencido pela humildade de Maria, do que por ser imediatamente esmagado pela Onipotência divina.

Se um pacto formal e plenamente consentido com o demônio pode trazer enormes conseqüências na vida de uma alma e mesmo perdê-la para sempre, que efeito espiritual não produzirá uma consagração a Maria, feita com verdadeiro espírito de fé e renovada a cada dia com sempre crescente fidelidade?

É preciso lembrar que, em dezembro de 1836, o venerável cura da igreja de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris, ao celebrar a missa no altar da santíssima virgem, o coração moído por pensamentos sobre a inutilidade de seu ministério, escutou estas palavra: “Consagra tua paróquia ao santíssimo e imaculado Coração de Maria”. Feita a consagração, a paróquia transformou-se.

No mesmo espírito, bispos italianos pediram a Leão XIII a autorização de consagrar suas dioceses ao Coração puríssimo de Maria e, na França, o cardeal Couillé, Mons. Touchet e Mons. Dadolle proclamaram Maria Rainha do universo. As ladainhas do Loreto, que há muito a invocam como Rainha dos anjos e de todos os santos, contém hoje, desde a última guerra, a invocação: Regina pacis, ora pro nobis.

A súplica de Maria por nós é a de uma Mãe sapientíssima, amorosíssima, fortíssima, que vela incessantemente sobre todos seus filhos, sobre todos os homens chamados a receber os frutos da Redenção.

Quem faz a experiência de consagrar todos os dias a Maria todos seus trabalhos, obras espirituais e empresas, encontra fé e confiança quando tudo parece perdido.

É o que o bem-aventurado Grignion de Montfort mostra admiravelmente no seu Tratado da verdadeira devoção à Santa Virgem, e no resumo que dele sob o título: O Segredo de Maria.

Ora, se a consagração individual de uma alma a Maria lhe obtém diariamente tantas graças de luz, direção, amor e força; se Maria nos faz assim entrar cada dia mais profundamente no mistério da Comunhão dos santos, quais não seriam os frutos de uma consagração do gênero humano feito ao Salvador pela própria Maria, à rogos do Pai comum dos fiéis, o Pastor supremo? Qual não seria o efeito de uma consagração assim feita, sobretudo se os fiéis de diferentes povos se unissem e vivessem dela, numa prece fervorosa, renovada freqüentemente durante a missa?

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Como escrevia a madre Maria de Jesus, fundadora da Sociedades das Filhas do Coração de Jesus3: “Posto que o inferno quer banir Jesus Cristo e sua Igreja das almas e das sociedades, é mais que nunca hora de elevar as mãos suplicantes à incomparável Virgem, por quem o Pai Celeste deu Jesus Cristo ao mundo; a fim de que esta doce Mãe do Salvador, devolvendo, por assim dizer, Jesus às almas, lhes devolva a vida perdida; que esta poderosa Protetora da Igreja, “terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 3), triunfe sobre seus inimigos e que esta gloriosa Rainha da hierarquia faça cair sobre todos os membros do Clero católico bênçãos tais do Coração de Jesus que lhes conservem sua coragem e lhes aperfeiçoem no meio das tormentas de nossa triste época, e lhes façam brilhar como diamantes sem mancha sobre a admirável túnica da Igreja.”

A mesma serva de Deus acrescenta um pouco mais adiante4 estas palavras que tanto convém ao nosso tempo:

“Não vivemos por nós, é preciso tudo enxergar nos desígnios de Deus; nossas dores atuais – ainda que cheguem ao cúmulo e que nos sacrifique nesse desastre – conquistam e preparam os triunfos futuros e certos da Igreja... A Igreja segue assim de luta em luta, de vitória em vitória, uma sucedendo a outra até a Eternidade, que será o triunfo definitivo.

“Foi preciso que Jesus sofresse e que assim entrasse na “sua glória” (Lc 24, 26); é preciso que a Igreja e as almas perfaçam o mesmo caminho. A Igreja não dura apenas um dia; quando os mártires caiam como flocos de neve no inverno, não se podia pensar que tudo estava perdido? Não, o sangue deles preparava a vitória que estava por vir.

“Como uma Esposa que se prepara para seu Esposo, a Igreja marcha através dos séculos rumo à perfeição do céu; ela se embeleza mais e mais; ela está pronta, mas continuará se embelezando até o dia das núpcias eternas.

“Não temais, pois, pelos perigos da Igreja: não é a Igreja que está em perigo; ela tem a palavra de Jesus Cristo e nada a abalará... As portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

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No difícil período que atravessamos, a Igreja tem necessidade de almas muito generosas, verdadeiramente santas. É Maria, Mãe da divina graça, Mãe puríssima, Virgem prudentíssima e forte, que as formará. Por toda parte, o Senhor sugere a almas interiores uma oração cuja forma varia, mas cuja substância é a mesma: “Neste tempo em que um espírito de orgulho inflado até o ateísmo procura se espalhar por todos os povos, Senhor, sede como a alma de minha alma, dai-me uma inteligência mais profunda do mistério da Redenção e de vossos santos aniquilamentos, remédio contra todo orgulho. Dai-me o desejo sincero de participar, na medida desejada para mim pela Providência, nesses salutares aniquilamentos, e fazei-me encontrar neste desejo a força, a paz e, por vezes, a alegria que é como o prelúdio ou o gosto das alegrias da eternidade.”

Para ingressar assim na profundidade do mistério da Redenção, é preciso que Maria, que nele ingressou mais que qualquer outra criatura, nos instrua silenciosamente aos pés da cruz e nos faça descobrir na letra do Evangelho o espírito do qual ela mesmo tão profundamente viveu.

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Que a Mãe do Salvador digne-se, por sua oração, colocar as almas fiéis de diferentes povos sob a luz desta palavra do Cristo: “Eu dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um, como também nós somos um” (Jo 17, 22).

“É da ordem das coisas, escrevia o cardeal Mercier, que as crianças exprimam a seu Pai seus mais íntimos desejos.” Podemos esperar que um dia, quando a hora providencial chegar, S. S. Pio XI, chamado o Papa das Missões, tomando em consideração os votos de bispos e fiéis, consagrará o gênero humano ao Coração imaculado e misericordioso de Maria, para que ela mesma, mais instantemente, peça por nos a seu Filho. Isto seria uma nova afirmação da mediação universal da Santíssima Virgem.

A intercessão mais poderosa ao Coração de Jesus é a da santa Mãe, que é também a Mãe de todos os homens, e que mais que ninguém depois de seu Filho conhece as imensas necessidades espirituais da hora presente.

Dirijamo-nos a ela com a maior confiança; ela foi chamada “a esperança dos desesperados”, e dirigindo-se a ela como à melhor das Mães e à mais iluminada, iremos à Jesus como ao nosso único e misericordioso Salvador.

Roma, Angélico.


1.O culto perpétuo das missas é mantido em particular pela União Eucarística, da qual a revista La Vie Spirituelle falou muitas vezes. Ver em particular La Vie Spirituelle, outubro de 1934 e março 1935, pág. 314.
2.Um movimento neste sentido, começado no Rio de Janeiro em 1935, atingiu rapidamente mais de oito milhões de horas de adoração para o ano de 1935.
3.Pensées de la servante de Dieu, Mère Marie de Jesus, 1841-1884, Roma, 1918, pág. 43.
4.Ibidem, pág. 50.

Fonte: Permanência

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O discernimento filosófico da experiência mística - Padre Maurílio Penido


Não pode o filósofo digno do nome permanecer indiferente em presença do misticismo. A mesma índole da filosofia desperta nos seus cultores profundo interesse por todas as manifestações do espírito. Como pois ignorar esses homens cuja vida parece retirar-se do corpo para concentrar-se no ápice dum espírito cuja chama arde e se dilata ao ponto de consumir a própria carne?

Tudo quanto atrai, subjuga, fascina os outros homens, eles desprezam-no: a riqueza, o prazer, a glória, a vida até. De bom grado optam por uma existência feita de contínuas privações, não raro abraçam a pobreza, a dor, a perseguição; por vezes preferem a morte antes que renunciar àquele mundo arcano no qual vivem. Justificam tão estranha conduta apelando sempre a uma experiência misteriosa e divina de que seriam favorecidos.

Iluminados, fanáticos, perseguidores de quimeras — ou então homens privilegiados, dignos de admiração e inveja? Mais ainda. Entre os místicos, muitos há que, renunciando a um esplêndido isolamento, trazem aos homens candente mensagem; formam adeptos, despertam imitadores, suscitam vastos movimentos espirituais. E a chama perdura e se renova através das vicissitudes do tempo. Sufocada aqui, ateia-se acolá. Na França do XVII século, inebriada pelo matematismo filosófico de Descartes, pela arte geométrica de Le Notre e de Mansard, eis que se acendem em cada província inúmeros focos de misticismo, como fortemente documentou Henri Bremond. Mais tarde, na mesma França sufocada pelo cientificismo que se jactava de apagar as estrelas, bastou que em Lisieux faiscassem centelhas místicas, para que o incêndio logo se alastrasse.

Como poderia o filósofo permanecer indiferente, quando até sólidos burgueses sentem-se-lhes abalar o granítico materialismo? Verdade é que o filósofo quase nunca tem alma acolhedora, em disponibilidade. Os fatos são obrigados a se amoldar à férrea rigidez do sistema. Aos recalcitrantes nega-se até mesmo o direito de existir: são friamente desconhecidos. 

Donde as atitudes diversas — e por vezes desconcertantes — dos filósofos em face do fenômeno místico.

Alguns, de tendência psicologista, apressam-se em identificar os místicos aos dementes e não mais cogitam no assunto. Outros, de pendor racionalista, afetam uma atitude protetora na qual entra não pouco desdém; na melhor das hipóteses serão os místicos considerados qual desasados pré-filósofos procurando às apalpadelas e a muito custo aquelas luzes que uma "filosofia do espírito" qualquer intelectualismo idealista lhes proporcionaria sem maior esforço. Em compensação, pensadores de índole empirista, para quem mais vale um fato do que um argumento, encaram o misticismo com simpática e até com franca admiração; assim na América os dois filósofos de Harvard: W. James e, sobretudo, W.E. Hocking; na Alemanha R. Otto; na França H. Bergson.

Adotaremos aqui uma atitude de incondicional respeito aos fatos. Afigura-se-nos quase pueril o negar ou refutar uma experiência. Sem dúvida, não basta constatar, senão é mister interpretar. Todavia, não convém a uma interpretação correta pautar-se por teorias pré-concebidas, nem devem os fatos sofrer um tratamento dialético que os esvazie de toda especificidade.

O desejo de ser objetivo levará necessariamente o filósofo a empreender um trabalho de discernimento: essas experiência denominadas místicas, que surgem no seio de religiões tão diversas — e até, por vezes, fora de qualquer religião — em meios e épocas tão distantes, serão porventura manifestações da mesma atividade, ou, pelo contrário, essencialmente diferentes, apresentando embora semelhanças mais ou menos superficiais?

Um estudo diferencial completo da experiência mística ultrapassa de muito o âmbito dum artigo de revista. Restringiremos pois a pesquisa a dois pontos atualmente mais controvertidos, porque mais obscuros: procuraremos discernir filosoficamente1a experiência mística cristã do misticismo patológico e do misticismo neo-platônico.

Com efeito, alguns alienistas incautos têm identificado certos delírios de coloração religiosa, por eles observados, com os fenômenos místicos dos maiores santos cristãos, do outro lado, alguns filósofos hão apresentado os nossos místicos como adeptos — conscientes ou não — do neoplatonismo ou, pelo menos, têm sustentado que é, de fato, a mesma experiência fundamental, que se vêm cristalizar nas fórmulas de Plotino, e nas de S. João da Cruz. Tentaremos portanto averiguar se o delírio místico, o misticismo filosófico, o misticismo cristão são outras tantas experiências irredutíveis ou não. Seguiremos um método decididamente a posteriori: não partiremos de considerações teóricas sobre a natureza e ainda menos sobre o valor dos respectivos fenômenos; assumiremos como "hipótese de trabalho" que eles são reais — ao menos como vivências psicológicas; indagaremos tão somente se apresentam caracteres diferenciais, observáveis pelo filósofo.
I. Misticismo e Loucura

A índole patológica da experiência mística foi inúmeras vezes afirmada por psicólogos e psiquiatras. Algumas dessas teorias são incontestavelmente desprovidas de qualquer valor, por exemplo, a de James Leuba, segundo o qual o elemento constitutivo do misticismo seria o "êxtase", que não passaria de uma queda na inconsciência, assimilável a uma crise de epilepsia ou à embriaguez profunda. Semelhante tese só pode ser sustentada por ignorância ou por má fé. Fosse embora o êxtase o que sustenta Leuba, em todo o caso é absolutamente falso constituir ele o âmago do misticismo cristão. Perderíamos tempo aduzindo testemunhas concordes de nossos místicos, tão evidente é a questão para qualquer conhecedor dos fatos.

Igualmente desprovida de valor é a opinião corrente entre os leigos consoante a qual o misticismo consistiria em visões, profecias, levitações, e outros fenômenos estranhos. O doutor cristão da mística, S. João da Cruz, exarou do iluminismo sob todas as formas, tremenda sentença condenatória, que já tivemos ocasião de resumir2 pelo que não voltaremos aqui sobre o assunto.

Bem mais digna de nota é a teoria de Pierre Janet. Na ponderosa obra De l'angoisse à l'extase, o mestre do Collège de France refere, com extraordinária minúcia, a observação, prosseguida durante 22 anos, duma doente designada pelo pseudônimo de Madeleine, que apresentava fenômenos místicos comparáveis, segundo Janet, aos da grande Teresa de Ávila. 

Reduzida a um resumo esquelético, a anamnese apresenta-se como segue. Madeleine nasceu no norte a França, em 1852, de pai industrial, muito emotivo, utópico, exaltado; de mãe nervosa. O casal procriou quatro filhos, vindo Madeleine em terceiro lugar. Infância excepcionalmente doentia; gênio muito impressionável; sonhadora, religiosíssima. Devido às doenças recebeu instrução relativamente deficiente (para pessoa de sua classe social em França). Entretanto, exprimia-se muito bem por escrito, lia Pascal, conhecia várias línguas, pintava agradavelmente. A partir dos onze anos apresentou fenômenos nevropáticos caracterizados: obsessões, alucinações, escrúpulos torturantes, períodos de depressão com absoluta imobilidade.

Aos 19 anos Madeleine partiu para a Alemanha a fim de ser professora numa família e... desapareceu! Durante quase um quarto de século procuram-na debalde os parentes. Que coisa havia sucedido? Madeleine fora acometida pelo que Janet denomina "a mania da ilha deserta". Incapaz de resolver as dificuldades inerentes à vida social, Madeleine fugiu.

Para justificar-se aos próprios olhos, pretendia seguir o ideal de S. Francisco de Assis, e, durante 20 anos viveu não só na pobreza como na completa miséria. Mais tarde declarava: "Se a miséria matasse, eu não existiria mais". O pouco que conseguia ganhar (6 vinténs diários) partilhava-o ainda com outros pobres; tornou-se enfermeira benévola de mulheres cancerosas. Tudo isso entremeado de alucinações, de idéias de perseguição. Escreveu cartas ao Presidente da República francesa; esteve em dificuldades com a polícia; por três vezes foi encarcerada. Por fim, venceu-a a moléstia. A dificuldade de locomoção que desde criança sentira, agravou-se consideravelmente durante o inverno de 1892 e 1893. Para fazer a entre de seus trabalhos de costura, via-se Madeleine obrigada a caminhar longas horas patinhando na neve; inchavam-se-lhe os pés, durante a noite, tornavam-se violáceos e sobremodo doídos. Com espanto percebeu que em conseqüência da contração dos músculos, começava a caminhar sobre as pontas dos pés, qual dançarina de Ópera. Resistiu quanto pôde, afinal capitulou: pelo espaço de quatro anos lá foi de hospital em hospital até que enfim os facultativos declararam tratar-se de "moléstia nervosa", já que todos os diagnósticos haviam sempre sido desencontrados... Internaram então a Madeleine no hospício da Salpêtrière, onde entrou para o serviço do Dr. Janet.

Ao cabo de 7 anos, tendo melhorado, regressou para junto da família, sempre sob a fiscalização de Janet. Viveu ainda 14 anos, pobremente, muito religiosa, serviçal, dedicando-se a uma irmã tuberculosa, e cuidando de várias crianças. Sofria das pernas, de um desvio do tórax, de crises cardíacas, e faleceu piedosamente em 1918.

O misticismo de Madeleine compreendia fenômenos quer físicos, quer psíquicos. As manifestações somáticas eram: 

1o., a contração muscular que obrigava a doente a se ter nas pontas dos pés. Madeleine interpretava esse fato como sendo o da "levitação" e como um começo de "assunção"; periodicamente anunciava que os pés não mais pousavam sobre a terra e que ela estava prestes a subir como um balão. Queria a todo o transe peregrinar a Roma para ser elevada ao Céu em presença de Sua Santidade.

2o., o que a Madeleine denominava "estigmas" e comparava às chagas de S. Francisco; não passavam, na verdade, de pequenas bolhas que ao arrebentar deixavam correr um pouco de serosidade misturada com sangue.

Muito mais complexos e interessantes os fenômenos psíquicos, constitutivos do delírio místico de Madeleine. A psicose evoluía por grandes crises apresentado fases diversas e podendo prolongar-se por vários meses. O ponto de partida era um esta de equilíbrio precário, de quase normalidade. Rompido esse equilíbrio, perturbada a normalidade, Madeleine entrava no que ela denominava "estado de tentação", o mais prolongado de todos. Dúvidas e escrúpulos de toda espécie acometiam a doente; interrogava constantemente Janet, sem que as respostas lograssem satisfazê-la; suplicava que lhe encontrassem um diretor de consciência o qual discerniria a autenticidade de seu misticismo, a sobrenaturalidade de sua missão junto ao Papa e lhe assegurasse que subiria ao céu, etc, etc. Exigia um diretor e de antemão dele duvidava. À tentação seguia-se a secura, de menor duração. Em vez da inquietude, da dúvida, a inércia, a apatia. Madeleine mantinha-se, então, sentada, imóvel, demonstrando profundo abatimento; nada lograva interessá-la; sentia tédio, indiferença, tudo parecia-lhe vazio. Sobrevinha enfim o delírio sob uma dupla forma, dolorosa e feliz. A primeira era uma psicose melancólica ansiosa, com agitação intensa: Madeleine corria à polícia para denunciar conspirações, profetizava catástrofes privadas e públicas, assistia pela imaginação a cenas de assassínio e de canibalismo; acreditando-se no inferno desesperava-se e sofria os tormentos dos réprobos.

Felizmente este estado lamentável só se prolongava pelo espaço de dois ou três dias; seguia-se-lhe o delírio inverso: a consolação, o êxtase. (Donde o título da obra: De l'angoisse à l'extase).

No delírio de beatitude, a ação exterior era extremamente reduzida. A extática conservava-se em absoluta imobilidade, sem reagir aos estímulos externos. Em vão as enfermeiras procuravam despertá-la, sacudindo-a, lançando-lhe água fira, colocando-lhe sinapismos; Madeleine permanecia em torpor completo. Não havia, no entanto, nem paralisia, nem anestesia, mas simplesmente desinteresse absoluto pela ação. Ao lado da inércia motora, notava-se atividade afetiva enorme e sempre otimista. A doente vivia uma série de romances interiores, de coloração religiosa, dos quais ela e Deus eram os dois protagonistas. Imaginava compreender todos os mistérios da religião, ouvia revelações estupendas, recebia inúmeras provas de amor. Acreditava-se uma grande santa; sentia-se até divinizada: "Je suis Dieu!" exclamava. Não é de surpreender que torrentes de júbilo, de perfeita felicidade, lhe inundassem a alma. Ao êxtase, seguia-se o estado de consolação, que apresentava as mesmas características, embora mais atenuadas. Pouco a pouco tudo se acalmava e Madeleine voltava ao quase equilíbrio primitivo.

O ciclo deste misticismo patológico pode pois resumir-se em sete fases: partindo de um estado subnormal, a doente passava por inquietações e dúvidas; caía na inércia, na apatia, soçobrava no desespero e na tortura; repentina viravolta a soerguia, levando-a ao êxtase beatificante; acalmava-se no otimismo da consolação; revertia ao estado inicial, para encetar outro ciclo análogo.

Como interpretar esse delírio místico? Janet explica-o, como era de prever, em função de suas teorias psicológicas. Distingue oito níveis mentais hierarquizados e admite a passagem de um a outro seja no sentido do progresso, seja no do regresso. Todas as deficiências e doenças mentais, explicar-se-iam quer por se ter o indivíduo detido a nível inferior, sem progredir (p.ex. o débil mental) quer por ter decaído a um nível mais baixo, em conseqüência de uma queda da tensão psicológica (p.ex., o paranóico).

Até mesmo no mas normal dos indivíduos, produzem-se contínuas oscilações da tensão psíquica, segundo está mais ou menos atento, ativo, etc.; durante o somo a queda é profundo; ao despertar, porém, volta logo ao nível habitual. — Pelo contrário, uma baixa contínua e acentuada provoca doenças mentais; estas, apesar de tão variadas, nada seriam, segundo Janet, senão graus da mesma depressão mais ou menos profunda. Tais graus são determinados pelo número maior das funções superiores alteradas e pelo lugar que ocupam na hierarquia, as funções conservadas e exageradas. A aparência tão diversa revestida pelas doenças mentais vir-lhes-ia simplesmente dessas diferenças de nível na depressão psíquica. O ataque de epilepsia, por exemplo, seria uma regressão ao "estágio de agitação difusa" que ocupa, segundo Janet, o grau ínfimo na escala das tendências. Ao contrário, o delírio de interpretação é um perturbar-se das tendências superiores. Um indivíduo que normalmente se encontra no "estágio experimental" (vértice da hierarquia) desce um degrau e se estabiliza no "estágio racional": as funções lógicas não só permanecem intactas como até se exageram; falta entretanto a apreciação correta dos fatos empíricos. Na psicastenia, verifica-se a perturbação das tendências médias, mais precisamente, das funções deliberativas. O psicastênico vive na dúvida, atordoado pelos escrúpulos, pelas hesitações infinitas; não consegue deliberar corretamente nem por termo à deliberação, tomando uma resolução firme; necessita de alguém que delibere e decida por ele. Suponhamos uma baixa maior de tensão e o "estado" psicastênico tranformar-se-á em "delírios psicastênico". Paralisa-se desta feita toda e qualquer deliberação e reflexão; os sentimentos desencadeiam-se com instantaneidade e força enormes, sem controle algum. Variáveis como são os fatos, as convicções mudarão em conseqüência; e resultará uma série de afirmações absolutas e contraditórias. Tal era o caso de Madeleine. Que desde a infância tenha vivido num estado de psicastenia mais ou menos pronunciada, não faz a mínima dúvida: os escrúpulos que a atormentavam, a abulia, o desejo de direção, o mórbido ascetismo que a levava a privar-se, não por virtude, senão por incapacidade de gozar, a tendência a fugir das dificuldades, em vez de tentar vencê-las — são outras tantas manifestações evidentes de psicatenia. Procurava compensar esta debilidade refugiando-se num mundo imaginário que não lhe oporia resistências. Com efeito, Madeleine dirigia a capricho suas divagações, vivendo uma série de histórias fictícias, de romances, nos quais representava, já se vê, um papel simpático. Sobreveio então uma nova baixa de tensão psíquica e Madeleine caiu no que ela denominava "estado de tentação" seguida pelo "estado de secura" que nada mais eram senão um fenômeno psicastênico acentuado, caracterizado pela incapacidade de decisão e logo de ação, com esta diferença que, na "tentação" esta incapacidade se revelava sob forma de ansiedade, na "secura" sob forma de inércia. Nova queda de energia mental e Madeleine retrocedia do estado psicastênico ao delírio psicastênico, o qual, à primeira vista, apresentava duas formas antagônicas: tortura e beatitude; contraste afetivo que todavia não deve fazer olvidar a unidade da psicose: é como o direito e o avesso do esmo processo; numa e noutra fase deparamos com afirmações categóricas: "Madeleine está no Céu — Madeleine está no inferno; Madeleine está divinizada — Madeleine está possessa"; a doente oscilava entre sentimentos desoladores e consoladores, entre o amor desalentado e o amor satisfeito, porque o psicastêncio, como fraco que é, procura amparo, donde a necessidade de afeição que o crucia; precisa adorar e ser adorado, lamenta não conseguir realizar esse ideal e não o consegue, porquanto lhe falta a tensão psíquica necessária ao estabelecimento dessa relações afetivas. Resta-lhe apenas um recurso: a fuga.

Assim Madeleine reclamava um coração amigo no qual se expandiria, entretanto fugiu de casa para viver solitária; posteriormente, baixando ainda mais a tensão psíquica, fugiu novamente e asilou-se na loucura; pôde enfim realizar no delírio as aspirações afetivas até então frustradas; viveu doravante um romance divino no qual Deus ora a maltratava, ora a deliciava. na demência, Deus lhe aparecia já como mestre, já como esposo; numa palavra, Madeleine conseguiu realizar, pela imaginação e a afetividade, todas essas relações sentimentais que houvera desejado, sem ter força para travá-las com indivíduos de carne e osso, dotados de caráter próprio, de vontade, de inclinações, que nem sempre corresponderiam às de Madeleine, com os quais forçosamente entraria em conflito, enquanto que ao delirar, ela dirigia, como melhor lhe saiba, o enredo dos desvairados romances.

Pensamos em não trair o pensamento de Janet, ao resumirmos numa frase a psicologia de Madeleine: ela sonhava e delirava, por ser demasiado débil para viver normalmente.

Só teríamos que louvar e nos instruir, estudando a obra do mestre francês, não houvesse ele generalizado o que observara num só caso e afirmado que todo misticismo não passa de uma das variedades de delírio psicastênico. Repetidamente comparou Madeleine a Santa Teresa, identificando-lhe as experiências.

Rejeitamos a assimilação, não apenas como católico — pois assim deprecia os nossos maiores santos — senão também como psicólogo — pois a teoria patológica não corresponde à realidade dos fatos. Tão patente a diferença que foi reconhecida até por um psicólogo notoriamente anti-religioso como Henri Delacroix. Embora tivesse ele escrito as suas Études d'histoire et de psychologie du mysticisme no intento confessado de encontrar uma explicação puramente naturalística do misticismo, insurgiu-se entretanto contra a pretensão de assimilar os grandes místicos aos loucos: "Si les grands mystiques n'ont pas échappé aux tares névropathiques qui stigmatisent les organismes exceptionnels, il y a en eux une logique constructive, une expansion réalisatrice, un génie, en un mot, qui est l'essentiel". Henri Bergson escreveu no mesmo sentido: "Quand on prend à son terme l'évolution intérieure des grands mystiques, on se demande comment ils ont pu être assimilés à des malades. Certes, nouv vivons dans un état d'équilibre instable, et la santé moyenne de l'esprit, comme d'ailleurs celle du corps, est chose malaisée à definir. Il y a pourtant une santé intellectuelle solidement assise, exceptionnelle, qui se reconnait sans peine.Elle se manifeste par le gôut le l'action, la faculté de s'adapter et de se réadapter aux circonstances, la fermeté jointe à la souplesse, le discernement prophétique du possible et de l'impossible, un esprit de simplicité qui triomphe des complications, enfin un bon sens supérieur. N'est-ce pas précisément ce que nous trouvons chez les mystiques dont nous parlons? Et ne pourraient-ils pas servir à la définition de la robustesse intelectuelle?"3 Sen os objetassem que Delacroix e Bergson, por não serem psiquiatras, carecem de autoridade, responderiamos que P. Quercy, psiquiatra não-católico, na sua obraL'hallucination, publicada quatro anos após o livro de Janet, consagrou à Santa Teresa longo e exaustivo estudo, chegando a conclusões que põem em relevo a perfeita sanidade mental da grande mística.

Ao nosso ver, mister é distinguir cuidadosamente três classes de fenômenos: 1o. as psicopatias, que parodiam o misticismo; 2o. certos casos peculiares de misticismo acompanhados (e não constituídos) por tal ou tal manifestação patológica4; 3o. o misticismo em si, que nada tem a ver com a psicose.

Que certos doentes parodiem os místicos, pondera Bergson, prova tão pouco contra os místicos, quanto as imitações patológicas de Napoleão provam contra o grande corso. Madeleine lera a autobiografia de Santa Teresa de Ávila, como também a obra do Padre Poulain, Les grâces d'oraison; ao delirar, reproduziu o que a impressionara nos escritos da grande carmelita. Não devem pois surpreender certas similitudes aparentes entre o místico e o nevropata. O único critério psicológico que nos permitirá discernir um do outro é o exame comparativo dos respectivos "comportamentos". Devemos confrontar as atitudes, as atividades exteriormente constatáveis de Madeleine e de Santa Teresa, para verificar se coincidem ou se diferem.

Comparando os escritos de ambas, averiguamos em seguida o superior talento da espanhola e a mediocridade intelectual da francesa. o que Madeleine escreve de melhor dá a impressão do já lido, do plagiado. Entretanto, diferença de valor intelectual não equivale a diferença quando à sanidade mental. Janet apressa-se em nos relembrar que Auguste Comte também esteve num hospício, o que não o impediu de ser profundo pensador. Fácil é retrucar que o Cours de Philosophie Positive não foi composto durante o internamento do filósofo. Que saibamos, nenhuma obra de gênio saiu até agora dum hospício. Ora, Santa Teresa escreveu todas as obras em plena "crise mística", para falar como Janet.

Os escritos de Madeleine abundam e superabundam em incoerências, em absurdos, em idéias indiscutivelmente delirantes (p.ex., profecias de cataclismas, denúncias de conspirações). Nada de semelhante em Santa Teresa. — E as visões, como explicá-las? As visões, como muito bem observou o Dr. Quercy, apresentam uma característica notável: a finalidade; harmonizam-se sempre com as preocupações do momento, não aparecem como parasitas ou corpos estranhos que venham perturbar ou interromper o fluxo da vida psíquica; pelo contrário, ligam-se naturalmente ao presente, ao passado, ao futuro; são imediatamente utilizáveis porque se unem estreitamente à ação.5

Os devaneios de Madeleine não apresentam nenhum desses característicos, e Janet é demasiado inteligente para não haver percebido a diferença; procura escapar à dificuldade graças a um expediente pouco digno de tão grande psicólogo: lemos Santa Teresa, pretende ele, em edições expurgadas, ad usum Delphini; quem sabe o que conteriam os originais? Por nossa vez podemos perguntar: o que se não lograria provar lançando mão de tais argumentos? Aliás, no caso de Santa Teresa, podemos justamente fazer a prova do não expurgo. Com efeito, possuímos alguns manuscritos da santa; o original da autobiografia, por exemplo, conserva-se na biblioteca do Escorial; foi reproduzido fototipicamente e cada qual tem o meio de averiguar a perfeita concordância entre o texto hodierno e o que escreveu Teresa. — Teria ela expurgardo o próprio manuscrito antes de passá-lo a limpo? Mesmo isso seria uma prova evidente de sanidade mental, já que só um homem normal pode discriminar entre afirmações delirantes e as sensatas. A própria Madeleine, tendo melhorado e deixado o hospício, quando Janet lhe fazia recordar a pretensa "assunção" de outrora, ria-se: "Est-ce possible que c'est moi que disais des bêtises pareilles?" Espantava-se justamente porque cessara o delírio. Por conseguinte, para que Santa Teresa pudesse ela própria expurgar as suas obras, temos que supor que as tivesse redigido em estado delirante e corrigido uma vez verificado o retorno à normalidade. A essa hipótese opõem-se duas razões peremptórias. Em primeiro lugar, Teresa conhecia o misticismo mórbido; descreveu até mesmo os falsos êxtases; perita na auto-crítica, receava a ilusão e por isso reclamava insistentemente o controle dos sábios de seu tempo. Torna-se inacreditável que ela, tão leal e sincera, haja friamente feito desaparecer de suas obras passagens que julgasse delirantes. Bem ao contrário, teria sido a primeira a denunciar como ilusório o seu misticismo. Mais, ainda. Possuímos cartas de Teresa, escritas em plena "crise mística", como possuímos cartas de Madeleine escritas nas mesmas condições. Ora, estas lhe refletem o delírio, já se vê: escreve ao presidente da republica denunciando conluios, relata à própria irmã festins canibalescos aos quais haveria assistido; queixa-se de ser perseguida pela maçonaria etc, etc. O epistolário de Santa Teresa — além de constituir uma obra prima literária — longe de encerrar idéias delirantes, demonstra sólido bom-senso, arguta diplomacia, humour cintilante.

Desta primeira confrontação resulta que Teresa gozava de equilíbrio intelectual e Madeleine encontrava-se num estado de desequilíbrio patente. mas existe um outro equilíbrio, o social, que vai tornar ainda mais claro o diagnóstico discriminativo.

Os psiquiatras insistem sobre a importância básica da conduta em sociedade, como pedra de toque da sanidade mental. Ribot chega até a afirmar que o critério último para distinguir o inventor de gênio daquele que sofre dum delírio de imaginação, é a fecundidade do invento, a sua adaptabilidade às circunstâncias, ao meio. Comparemos pois os comportamentos sociais de Madeleine e de Santa Teresa: Janet afirma que o traço característico da atitude exterior de Madeleine é o desinteresse pela ação, a esterilidade social. De coração ótimo, muito serviçal por natureza, a pobrezinha, durante os anos de loucura, houve-se como arrematada egoísta. Imersa na mais completa introversão, substituía o agir por estéril jogo de imagens e sentimentos. Recusava-se com obstinação a prestar o mínimo serviço; não tomava a menor parte nos sofrimentos alheios. Quando, por exemplo, lhe anunciaram a morte lamentável dum seu cunhado que deixava a família em condições angustiosas, Madeleine externou a maior indiferença. Agitava-se, porém, sobremodo pelo pensamento, falava de força e de amor, predizia triunfos, proclamava a sua missão — mantinha-se entretanto na inércia absoluta. Acreditava piamente que Deus lhe ordenava a ida a Roma para ver o Papa. Falava, e muito, mas apesar das insistências de Janet, que cumprisse as ordens divinas, não dava um passo nesse sentido, salvo uma vez quando de olhos fechados deitou a correr pelo pátio do hospício, voltando logo após à enfermaria. Parecia desejar muitas, coisas, porém logo que se tratava de passar à decisão e ainda mais à execução, perturbava-se e se paralisava. Bastava que se lhe propusesse uma resolução a tomar para provocar intermináveis obsessões. Sobre ste ponto Janet resume-se da seguinte maneira: "L'observation de Madeleine nous montre de toutes les manières son impuissance d'action sociale. On peut observer cette impuissance sociale particulière, en remarquant que Mdeleine est restée pendant sept ans en relation constante, dans un dortoir commum, avec un grand nombre d'autres malades; celles-ci étaient des femmes jeunes pour la plupart, très nerveuses, très suggestibles, très faciles à influencer et je craignais un peu au début, que Madeleine ne fut le point de départ d'une petite épidémie de délire religieux. Il n'en a absolument rien été et Madeleine n'a jamais eu l'ombre d'une influence sur aucune de ces pauvres femmes. Elle le reconnaìssat elle-même... Bien mieux, j'ai remarqué que beaucoup de ces malades vivant ensemble plusieurs mois, avaient formé entre elle des relations affectueuses quei ont survécu à leur séjour à l'hôpital. Madeleine n'était pas dépourvue de sentiments affectuex; elle disait souvant de ses compagnes: "Je les aime profondément, leurs misères physiques m'affectent autant que leurs misères morales!..." Eh bien, malgré ces bonnes dispositions, Madeleine n'a jamais eu d'amies dans la salle, et après avoir quitté l'hôpital, n'a conservé des relations avec personne, si ce n'est avec moi. Cette impuissance des psychasthéniques à faire des camarades et des amis, à conserver des relations avec d'autres, est tout à fait caractéristique".

Sofresse Santa Teresa de delírio psicastênico e deveríamos nela observar idêntico "comportamento", idêntica incapacidade de tomar iniciativas e decisões, de formar e conservar relações, de manter uma atividade adaptada às circunstâncias, numa palavra, observaríamos a inatividade social que em Madeleine se notara. Ora, exatamente o contrário averiguamos. Longe de ser inerte, de fugir para a "ilha deserta" e asilar-se no sonho, Teresa desenvolveu uma atividade fora do comum, verdadeiramente espantosa — ainda mais para uma mulher daqueles tempos. — Reformou não só as freiras como os frades carmelitas; fundou trinta conventos, vencendo as mais prementes dificuldades materiais e enfrentando as mais decididas oposições. Dirigiu com tato, diplomacia, energia, dignas de um grande estadista, negociações laboriosas e delicadas. Viajava tanto, que afinal lhe ordenaram as autoridades eclesiásticas, se recolhesse à solidão claustral, por não convir que estivesse sempre uma religiosa a errar por montes e por vales. Conquistou amizades e provocou dedicações extremadas em todas as classes sociais; exerceu profunda influência não só em meios conventuais, senão entre os mais doutos e os mais graduados de Espanha.

Janet, sentindo quão precária era sua posição, tentou uma retirada estratégica e, para cobri-la, valeu-se de dois expedientes. Afirmou em primeiro lugar que Santa Teresa é personagem muito antiga e provavelmente lendária, cujos feitos e ditos não podem controlar...

Ingenuamente perguntaremos por que Santa Teresa pertencia à história quando Janet a classificava entre os dementes, e se tornava subitamente lendária quando se lhe provava a sanidade mental? Retrucaremos outrossim, que fontes históricas abundantíssimas e controladíssimas permitem reconstituir a atividade social da santa, sem que sejamos obrigados a fazer um cego ato de fé nas declarações de Teresa.

Adita ainda Janet: "esses indivíduos místicos não passaram a vida em êxtases; terminada a crise, puderam desenvolver uma atividade normal". Esquece-se o ilustre mestre que tampouco Madeleine passara a vida inteira em êxtase; segundo as próprias declarações de Janet: "les extases de Madeleine sont assez rares et n'occupent que deux ou trois jours de tems en temps". Ora, não foi apenas por dois a três dias, "de tempos em tempos" que Madeleine se revelou socialmente incapaz, foi durante todos os sete anos passados na Salpêtrière, confirmado isto pelo próprio Janet repetidamente. Só retornou à atividade social ao cessar o delírio místico. Em Santa Teresa, muito ao contrário, o misticismo, longe de ser inativo, era fonte de ação; até mesmo as visões tinham em grande parte a finalidade de regular e dirigir-lhe a atividade exterior. Prova sobeja encontraremos no livro das "Fundações", no qual a Santa relata, com grande vivacidade e abundância de detalhes, suas atividades de reformadora. É inútil multiplicar exemplos. Tão diversas as fenomenologias do misticismo de Teresa e do delírio de Madeleine, que parece de todo impossível afirmar-lhes a identidade substancial: demasiado profunda é a oposição, demasiado evidente a irredutibilidade.

II. Plotino e São João da Cruz

Muitíssimo mais laborioso para o filósofo discriminar a experiência religiosa neoplatônica do misticismo cristão. Com efeito, Plotino, longe de ser um pobre destroço humano, foi um dos gênios que mais honraram a nossa espécie. Além de que, ambas as vivências parecem apresentar vários pontos de contato; bem mais, os místicos cristãos utilizaram não raras fórmulas e expressões neo-platônicas e as narrativas que nos deixaram de suas experiências, por vezes recordam as descrições plotinianas. Sem dúvida, a dependência literária não deve demasiado impressionar, pois o manancial, no qual nossos místicos medievais e modernos se abeberaram, foram os escritos de um neo-platônico, o famigerado Dionísio Aeropagita, considerado então discípulo direto de S. Paulo, pelo que lhe assistia autoridade ímpar. Por isso a infiltração de fórmulas neo-platônicas em nossa mística tornava-se fatal, inevitável. Nessas condições, utilizar expressões plotinianas equivale tão pouco a desposar o plotinismo quanto o aproveitamento das noções aristotélicas de "matéria e forma", "substância e acidente" confere uma índole peripatética à doutrina católica dos Sacramentos.

Da pura dependência literária, poderemos deduzir no máximo, uma semelhança indeterminada entre ambas as experiências místicas, porém nunca uma identidade. Outros indícios, entretanto, parecem indicar afinidade mui profunda, ao ponto que certos intérpretes são levados a considerar as diferenças como superficiais apenas. Aqui e ali, argúem eles, observamos o despontar duma sede do Absoluto que não logram estancar nem a contemplação longínqua através de conceitos abstratos, nem mesmo a mera presença de Deus; anela um contato direto e vivido, exige a posse e a fruição.

O místico, aguilhoado pelo desejo de Deus, despreza todo e qualquer gozo finito porque este, longe de aquietar-lhe as ânsias, exacerbá-las-ia ainda mais.
Aqui e ali constatamos um movimento de fuga para um mundo invisível que é a verdadeira pátria, a morada do Pai. Aqui e ali se nos depara idêntico itinerário: o esforço de introversão, a técnica preparatória de simplificação e de renúncia que escoima a alma de toda impureza, levando-a ao limiar da experiência beatificante. Aqui e ali averiguamos a existência duma intuição inefável que une o místico a Deus.

Não estranha pois, que mesmo um erudito como J. Baruzi haja aproximado Plotino e João da Cruz ao ponto de não deixar entre ambos senão diferenças acidentais. Pouco valeria a essas alturas, opor a metafísica pagã de Plotino à filosofia e à teologia cristãs de João da Cruz. Por óbvio e patente fosse o contraste, deixaria entretanto subsistir uma dúvida importuna: não haveria que distinguir, no misticismo, entre o conteúdo e a expressão? Não seria idêntica vivência que ora se cristaliza em fórmulas neo-platônicas, ora em termos cristãos?

Afim de reduzir tanto quanto possível a parte de conjectura e de controvérsia, tomemos ambas as experiências, como Plotino e João da Cruz as descrevem, e procuremos penetrar-lhes o âmago. Realizado esse esforço, percebemos que o êxtase plotiniano é uma visão solitária e despersonalizada, fruto do humano labor, enquanto que a união mística sanjoanense revela-se qual convívio de mútuo amor, obra da iniciativa divina.

Não há negar o caráter profundamente intelectualista do sistema de Plotino. O êxtase religioso que lhe serve de ápice e de coroa é uma intuição estreitamente intelectual ou — como tantas vezes declara o próprio filósofo6 — uma "visão". (V,3,17;V, 5,7 e 8; VI, 7,31 etc). Sem dúvida Plotino adianta que tal visão se processa "sem pensamento" (o que levou alguns a interpretar-lhe o êxtase como queda na inconsciência) porém essa negação atinge tão somente o pensamento que comporta "alteridade" (VI, 9, 6) isto é, distinção explícita, vívida, de sujeito pensante e de objeto pensado; em compensação, deixa subsistir intacto o pensamento que é pura apreensão do objeto sem percepção do sujeito pensante. O "extase" aparece não só etimológica senão realmente, como saída de si para perder-se no objeto (IV, 8, 1). Longe de ser aideísmo vazio, ele tem um conteúdo positivo: é pura luz. "Abandonando todo conhecimento racional, estende-se o pensamento até Aquele no qual existe. Carregado então pela onda da inteligência, erguido pelo fluxo que se alteia, vê repentinamente, sem saber como. A visão ao aproximar-se da luz não descobre um objeto diverso dela mesma; a coisa avistada é a própria luz. Não existe então objeto visto e luz que faz ver, como não há inteligência e inteligível: existe pura luz que dá origem à inteligência e ao inteligível" (VI, 7,36). Plotino leva-nos pois a distinguir entre consciência, como objeto do conhecimento de objeto, e consciência como conhecimento de si. Na segunda acepção, o êxtase é inconsciente, na primeira, é hiperconsciente: de tal forma concentra-se o espírito em Deus, de tal forma o apreende e assimila, que se esquece de si. "Retire-se do mundo exterior, concentre-se totalmente no íntimo, não se volte às coisas de fora, ignore tudo (primeiro dispondo a alma, depois repelindo, ao contemplar, toda idéia distinta) ignore até que é ele quem contempla e, após ter-se unido a Deus e com Ele convivido, vá anunciar aos outros o que é essa união". (VI, 9,7). "A alma vê subitamente (Deus) nela aparecer; nenhum intermediário entre ambos; não são mais dois, fazem um só; não há mais distinção possível enquanto Ele está presente. A alma não mais sente o corpo... não mais diz que é homem ou ser animado ou qualquer coisa que seja: contemplar tais objetos destruiria a uniformidade desse estado, e ela não o pode, nem quer. Procura a Deus, sai-lhe ao encontro quando se apresenta e vê não mais ela, senão Ele" (VI, 7, 34; cf. VI, 9,3). "Alguns, inteiramente inebriados de néctar, cuja alma é toda inteira penetrada pela beleza, não são meros espectadores; não mais existe aquele que vê e aquele que é visto, exteriores um ao outro; a vista aguçada penetra o objeto em si mesmo, possui a coisa, sem saber que a possui" (V, 8, 10; cf. V, 8, 11). "O objeto, que ele vê, não o vê no sentido de distinguí-lo de se mesmo, de representar-se um sujeito e um objeto. O vidente tornou-se um outro, não é mais ele mesmo; em nada contribui à contemplação. Unido inteiramente ao objeto, com ele se identificou, como se houvesse feito coincidir o próprio centro com o centro universal", (VI, 9, 10). Temos aqui um misticismo especulativo, recompensa do labor filosófico. Aquele Deus que é procurado pelo sábio, através da trabalhosa ascensão dialética, e que não logra atingir qualquer conhecimento abstrato, ele o vislumbra graças a uma iluminação repentina e fugaz.

E o amor? O amor, sob forma de desejo, deu o primeiro impulso à ascensão e sustenta-lhe as diversas fases. "Inflamada pelo ardor celeste, a alma cobra forças, despertas, tem realmente asas, alteia-se, ligeira, até um objeto superior" (VI, 7, 22; cf. VI, 7, 31). Uma vez conquistada a intuição suprema, o amor, a felicidade, o gáudio, não têm medida. (VI, 7, 34). Mas, para Plotino, a experiência é formalmente, de ordem intelectiva, visão da mente: "a vida ideal é ato da inteligência: por esse ato, a alma imóvel, graça ao contato com o Uno, dá origem aos deuses, à beleza, à justiça, às virtudes". (VI, 9,9).

O amor parece ter por ofício, a um tempo, concentrar as forças do intelecto e distender a intuição metafísica até ultrapassar os limites do humano (VI, 7, 31 e 34).

Segundo S. João da Cruz, muito pelo contrário, na vida mística cabe ao amor completa primazia sobre o intelecto, pois é o amor que constitui a mesma experiência. Sabemos, de certo, que somente a fé — radicada na parte intelectiva na alma — nos faculta atingir a Deus; sabemos portanto que a experiência surge dentro da fé, o Doutor místico di-lo e o repete; todavia, a simples vida de fé não é ainda vida mística (assim sendo, todos os crentes seriam místicos).

Quando o conhecimento de fé se torna experiência, convívio, posse, fruição, deve-o tão somente ao amor, à caridade. O misticismo sanjoanense comporta, sem dúvida, certo conhecimento de Deus, mas esse conhecimento brota do amor, ou, nas próprias expressões do Santo, ele é "sabiduria amorosa, porque nunca da Dios sabiduria mística sin amor, pues el mismo la infunde" (Noche oscura, lib. 2, cap. 12, no. 2). Não deixa de ser significativo o fato de o místico grego ter preferido o simbolismo da Luz, e o místico espanhol o simbolismo da Noite. Luminosa por essência, a inteligência culminará na fulguração do raio; enquanto o amor é impulso cego, força sombria, noturna; longe de captar o objeto para torná-lo translúcido e reproduzi-lo no espírito, o amor tende a identificar-se com o objeto para nele se perder. Esse bem ao qual se une, o amor apreende-o de certo, mas como às escuras; com ele vive, na sua concreção individual, sem exprimi-lo ou traduzi-lo: contenta-se com tê-lo presente e dele fruir.

O Deus de Plotino age incessantemente sobre o mundo que dele emana; no entanto, essa atividade cósmica do Deus-criador não é aquela ação seletiva, discriminadora que trava relações pessoais com este ou aquele homem. O Uno plotiniano permanece não só o grande Solitário, senão o inexorável Silencioso. Donde o êxtase é uma experiência unilateral, se assim podemos nos expressar. Galgando à custa de penosos esforços a escala ascendente dos seres, alçando-se de purificação em purificação, sublimando-se de simplificação em simplificação, o sábio por fim consegue alcandorar-se no cume donde descortinará, de longe em longe e num rápido lampejo (VI, 9,9 e 10) a visão do ser divino. Mas o Deus de Plotino não reage; permanece tão indiferente ante o espírito que o contempla, quando o Deus de Aristóteles em face do desejo da inteligência que movimenta o céu supremo.

Descreve belamente Plotino a exuberância dos sentimentos que alvoroçam o visionário (I, 6,7; VI, 7, 34), não registra, porém, a mínima resposta, do Objeto de tão ardente afeto. Seria de certo inexato asseverar que Deus não desempenha papel algum nessa mística, pois que segundo Plotino, Deus é fonte suprema do desejo, impele o espírito criado como primeira causa eficiente e última causa final. "A alma recebe um influxo do alto; agita-se; o aguilhão do desejo a incita; o amor nela desponta". (VI, 7, 22). "Aquele que a alma persegue, que dá luz à inteligência, cujo mínimo vestígio comove, não é de maravilhar se desfruta tal poder de atração para nos fazer regressar dos caminhos erradios a fim de nele encontramos o descanso. Tudo dele vem, ele é superior a tudo". (VI, 7, 23) "Se a alma vive é porque vida mais sublime lhe foi ao encontro. Sobrelevada até ao cume, ali se detém, contente de se achar perto dele... Ama o bem porque desde o início foi por Ele impelida a amá-lo" (VI, 7, 31). É de notar, sem embargo, que tal iniciativa divina não ultrapassa o plano cósmico. Segundo Plotino, Deus, como cria necessariamente, assim atua necessariamente, qual causa primeira, sobre todos os seres, logo sobre todas as almas, inclusive a do místico. De modo algum há livre intervenção, escolha, dom pessoal de Deus.

O neo-platônico contempla aquele Uno donde lhe vem o ser, nunca o Amigo que lhe oferta o próprio amor. E assim há um verdadeiro abismo entre o "Deus-fonte-do-ser" de Plotino, e o "Deus-amigo-meu" de S. João da Cruz. Ao grito de desejo de Plotino, responde o eterno silêncio! Ao passo que S. João da Cruz sabe que tem a Deus por Amigo, porque Deus lho disse. "Con suma estimación (Dios) te ama, e igualándote consigo, mostrándosete en estas vías de sus noticias Él mismo alegremente, con este su rostro lleno de gracias y diciéndote en esta unión suya, no sin gran júbilo tuyo: yo soy tuyo y para ti, y gusto de ser tal qual soy para ser tuyo y para darme a ti" (Llama de amor viva, cancion 3, verso 1, n. 6). As metáforas de "esponsais" e de "núpcias" místicas, patenteiam que se travam livres relações de mútuo amor. "En la unión y transformación de amor, el uno da posesión de si al otro y cada uno se deja y da y trueca por el otro, y asi cada uno vive en el otro y el uno es el otro y entrambos son uno por transformacion de amor" (Cantico espiritual, canción XI (XII) verso 5).

Já que a intervenção divina na experiência mística de Plotino não ultrapassa aquela moção geral com que a causa primeira faz passar da potência ao ato todos agentes criados, segue-se que a preparação será tão unilateral quanto a experiência mesma. Pelo próprio esforço, guinda-se o sábio ao alto da rude encosta; sozinho ele foge ao encontro do divino solitário (VI, 9, 11). Como que corrigindo a frase acima citada sobre a "vinda" de Deus, Plotino ensina explicitamente que é a alma quem sobe: Deus não vem, porquanto já está presente a todas as coisas (V, 5, 8; VI, 9, 7). Mais significativo ainda é o fato asseverar que todos os homens podem conquistar a visão mística; se alguém não o consegue, culpe-se a si mesmo (VI, 9, 4). A misticidade faz parte integrante da própria natureza humana. "Fujamos para a pátria amada, eis o verdadeiro conselho a dar... a pátria é o lugar donde viemos, ali está nosso Pai. Que é pois essa viagem, essa fuga? Não a realizaremos com os pés: eles nos levam sempre de uma terra a outra; tampouco há que preparar carruagem ou navio; porém é necessário não mais olhar e, cerrados os olhos, trocar essa visão por uma outra, despertar enfim essa faculdade que todos possuem e poucos utilizam". (I, 6, 8).

S. João da Cruz encarece igualmente o esforço pessoal de preparação; dedica-lhe os três livros da "Subida del Monte Carmelo", onde formula exigências radicais no tocante à purificação da alma. Nenhum autor é mais alheio ao quietismo. Mantém, contudo, que tal purificação não basta, por mais rigorosa seja ela; nunca logrará alçar a alma acima do estado de "começante", de místico incipiente; restarão sempre resquícios de defeitos que labor humano algum conseguiria desarraigar. "Por más que el principiante en mortificar en sí se ejercite todas estas suas acciones y passiones, nunca del todo, ni con mucho, puede, hasta que Dios lo hace en el passivamente por médio de la purgación de la dicha noche". (Noche oscura, lib. I, cap. 7, m. 5).

Ninguém conquista a experiência mística cristã; não se produz de maneira natural e, por assim dizer, fatal , ao terminar a purificação ativa; ninguém tampouco a ela adquire o mínimo direito: sendo convívio de mútuo amor, requer a livre iniciativa de Deus que eleva a si quem Ele quer por amigo. Donde a absoluta gratuidade da vida mística.

Esse desejo de Deus que ambos desvendam no coração humano, é para Plotino uma exigência que requer apenas para ser satisfeita, nosso esforço de purificação; para S. João da Cruz, é somente um anseio cujo objeto está absolutamente fora do alcance da criatura. O homem não se eleva até a vida divina, senão esta se comunica ao homem por misericórdia. Donde a insistência do Santo sobre a purificação "passiva", obrada na alma pelo próprio Deus.

Enquanto para Plotino o êxtase beatificante é posterior à purificação, para S. João da Cruz, a mesma purificação passiva já é experiência do divino; 7 a alma sente, vive o trabalho divino em si mesma, sente-se invadida por Deus que a arrebata desprendendo-lhe as atividades espirituais do respectivo objeto natural para fixá-las sobre um objeto sobrenatural: "En esa soledad que el alma tiene de todas las cosas, en que está sola con Dios. El la guia y mueve y levanta a las cosas divinas, conviene a saber: su entendimento a las divinas inteligencias, porque ya está solo y desnudo de obras contrarias y peregrinas inteligencias; y su voluntad mueve libremente al amor de Dios, porque ja está sola y libre de otras afecciones, y lleva su memoria de divinas noticias, porque también está ya sola y vacía de otras imaginaciones y fantasias". (Cantico, canción 34/35 verso 3).

Donde as orientações divergentes da própria purificação ativa: esta, para Plotino será principalmente lógica (ascensão pelos degraus do ser, deixando de parte as diferenças) e psicológica (introversão, amortecimento da sensibilidade, unificação da multiplicidade interna); para S. João da Cruz será antes de tudo purificação moral: desapegar-se das coisas, do próprio eu e de suas operações, desapropriar-se, para deixar livre caminho à invasão divina: "luego que el alma desembaraza estas potencias y las vacia de todo lo inferior y de la propriedad de lo superior, dejando-las a sola sin ello, inmediatamente se las emplea Dios en lo invisible y divino, y es Dios el que la guia en esta soledad". (1.c.).

Investigando, por fim, as implicações metafísicas de ambas as experiências, verificamos que tanto Plotino quanto João da Cruz têm um altíssimo conceito da Transcendência divina — até Plotino acentua a doutrina ao ponto que o Uno parece quase esvair-se em o nada. Nessa perspectiva, suscita qualquer experiência mística dificílimo problema: infinito o caminho, como será ele transposto? que o contato possível entre os incomensuravelmente distantes? como logrará o débil esforço humano vencer a descontinuidade entre os seres em presença? A esses angustiosos quesitos, cabem apenas duas respostas positivas.

A primeira ensina que Deus, num ímpeto de misericordiosa e incompreensível condescendência, alevanta o homem até si, comunicando-lhe uma participação da vida divina: é a solução "sobrenaturalista" cristã, que S. João da Cruz viveu experimentalmente no seu misticismo.

Uma segunda resposta apresenta-nos o panteísmo: o homem logra atingir a Deus porque já o tinha em si mesmo. Soçobra, na verdade, por uma estranha contradição, a transcendência divina! Torna-se contudo concebível a mística "naturalista". Se bem Plotino não haja explicitamente desposado o panteísmo (antes, certos de seus textos parecem excluí-lo), todavia somente o panteísmo poderia alicerçar-lhe a mística. O ápice do espírito humano seria, na realidade, uma centelha faiscada pelo foco incriado de luz; centelha descaída no seio da matéria mas que, por tal, não perdeu a natureza: aguarda, cativa, que nosso esforço a liberte. "Deus aí está, presente a quem o pode tocar, ausente para quem disso é incapaz" (VI, 9, 7). A introversão dialética, fazendo descobrir ao homem seu autêntico eu, fá-lo-ia simultaneamente dar com o mesmo Deus que já ali se encontrava em estado de latência (V, 1, 11; V, 8, 11; VI 5, 12; VI, 7, 34). A inquietude mística seria pois o refluxo natural do não menos natural fluxo criador das coisas. No êxtase a alma retornaria à pureza inicial da emanação divina.

A confrontação do "comportamento" de Madeleine com o de Santa Teresa nos forçou a afirmar irremediável contraste entre os respectivos psiquismos; agora, a comparação entre as experiências místicas de Plotino e de S. João da Cruz nos leva a constatar novamente — embora a um nível muito superior — outra heterogeneidade. Quer perscrutando-lhes a estrutura, quer investigando-lhes a fase preparatória e as implicações metafísicas, deparamos com diferenças tão profundas entre o êxtase plotiniano e a união sanjoanense que só podemos concluir em favor dum rigoroso discernimento de ambos. 



1.Deixaremos de parte as considerações históricas e aquelas, muito mais preciosas, que nos ministra a teologia. Esta é conhecedora do que seja misticismo autêntico, porque dispõe dum ponto fixo de referência. Todavia, como um estudo teológico de Deus não inutiliza a meditação filosófica sobre o Ser supremo, assim a teologia mística não tornará casso o investigar do filósofo, pois que este há de considerar a experiência mística dum ângulo diverso.
2.No trabalho "Misticismo e Iluminismo". (Publicação da Comissão Permanente de ação social, S. Paulo, 1941).
3.Les deux sources de la morale et de la religion, p. 243.
4.Estudamos um desses casos no artigo Grâce et folie (Etudes Carmelitaines, mars 1939).
5.O fato de as visões dos santos revestirem às vezes aparências alucinatórias não é de impressionar, porquanto nos artistas e nos inventores apresentam-se, não raro sob um mecanismo alucinatório, idéias e descobertas que nada têm de delirantes, pelo contrário.
6.De Plotino, utilizaremos a seguinte edição: Plotin, Ennéades, texte etabli et traduit par E. Bréhier. 7 vols. Paris, Les Belles Lettres, 1924 a 1938. Em nossas referências os três algarismos designam respectivamente a Enéade, o tratado, o capítulo.
7.É de notar também que para Plotino a experiência é rápida, intermitente e parece não comportar graus; para S. João da Cruz, ao contrário, ela os comporta e pode-se tornar permanente no estádio da "união transformante". A diferença provém de que para o primeiro o misticismo é constituído pelo êxtase enquanto, para o segundo, o êxtase lhe é extrínseco, acidental e destinado a cessar apenas a vida mística se aprofunde e estabilize

Fonte: Permanência

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Filosofia para a Sala-de-Aula - G.K. Chesterton



G.K. Chesterton
Publicado originalmente no Daily News, 22 de junho de 1907
Tradução de Gabriele Greggersen
Retirado do site: Hottopos.com

O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda a argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida. Pode-se, é claro, duvidar da afirmação base, mas, nesse caso, já estaria dando início a outra argumentação diferente, propondo que se parta de outra suposição. Todo argumento inicia por um dogma infalível, e esse dogma absoluto, por sua vez, só pode ser discutido, se recorrermos a outro dogma infalível: nunca se pode provar o primeiro ponto-de-partida (senão não seria ponto-de-partida).

Este é o be-a-bá do raciocínio lógico. E tem esta vantagem especial de que pode ser ensinado na escola, como qualquer outro be-a-bá. Não dar início a qualquer discussão sem antes declarar abertamente os postulados de cada um, é uma regra a ser ensinada tanto na filosofia, quanto na matemática de Euclides, ou em qualquer aula comum, usando giz e lousa. E penso que esse princípio poderia ser ensinado de forma simples e racional até mesmo ao jovem, antes de aventurar-se pelo mundo, à mercê da “lógica” e da filosofia imposta pela mídia.

Muitas das desorientações e dúvidas no campo religioso, surgem pelo fato de os céticos de hoje começarem sempre, falando sobre tudo aquilo em que eles não acreditam. Mas, mesmo de um cético, o que queremos saber primeiro é em que ele realmente acredita. Antes de começar a discutir, é preciso saber o que é que não se discute. Essa confusão aumenta infinitamente pelo fato de que todos os céticos de nosso tempo são céticos em diferentes graus dessa dissolução que é o ceticismo.

Agora, nós temos (espero), uma vantagem sobre todos esses novos filósofos sabidos: mantemo-nos em sã consciência. Acreditamos que existe, de fato, a catedral de São Paulo; e grande parte de nós acredita em São Paulo. É preciso deixar bem claro que acreditamos em muitas coisas que, embora façam parte de nossa existência, não podem ser demonstradas. Nem é preciso meter religião na história. Diria até que todos os homens de bom senso, acreditam firme e invariavelmente em umas quantas coisas que não foram provadas e que nem sequer podem ser provadas.

De forma resumida, são elas:

(1) todo ser humano em sã consciência acredita que o mundo e as pessoas ao redor dele são reais e não um produto da sua imaginação ou de um sonho. Ninguém começa a incendiar Londres, se está convencido de que seu criado logo o acordará para o café da manhã. Mas não temos provas, em nenhum momento, de que tudo não passa de um sonho. Que algo exista além de mim é uma afirmação que não está comprovada (nem se pode comprovar…).

(2) Todo homem em sã consciência, acredita não somente que este mundo existe, mas também que ele tem importância. Todo homem acredita que há, em nós, um tipo de obrigação de nos interessarmos por esta visão da vida. Não concordaria com alguém que dissesse, “Eu não escolhi esta farsa e ela me aborrece. Fiquei sabendo que uma senhora idosa está sendo assassinada no andar de baixo, mas eu vou é dormir “. O fato de que há um dever de melhorar coisas não feitas por nós é algo que não foi provado e não se pode provar.

(3) Todos os homens em sã consciência acreditam que existe uma certa coisa chamada eu, self ou ego e que é contínua. Não há nenhum centímetro de meu cérebro igual ao que era há dez anos atrás. Mas se eu salvei a vida de um homem numa batalha há dez anos atrás, fico orgulhoso; se me acovardei, sinto-me envergonhado. A existência desse “eu” axial nunca foi comprovada e não pode ser comprovada. Trata-se de uma questão mais do que “improvável” e que é muito debatida entre os metafísicos.

(4) Finalmente, a maioria dos homens em sã consciência acredita, e todos o admitem na prática, que têm um poder de escolha e responsabilidade por suas ações.

Seguramente é possível elaborar algumas afirmações simples como as acima, para que as pessoas possam saber a que se ater. E se os jovens do futuro não vão ter formação em religião, pode-se-lhes ensinar, pelo menos, de forma clara e firme, um pouco de bom senso, três ou quatro certezas do pensamento humano livre.

Créditos: www.sociedadechestertonbrasil.org

Castidad, virginidad y filosofía - Cornelio Fabro



En el orden de las cosas hay una afinidad innata y casi connatural entre castidad y filosofía. La filosofía es el elevarse de lo múltiple al Uno, de lo compuesto al Simple, de lo móvil y siempre cambiante a la Fuente perenne e inmutable; por esto el abstraerse y purificarse de toda forma de apego sensible y material es la castidad esencial del pensamiento esencial. En ella vinieron a menos aquellos filósofos condenados por San Pablo: «…como inexcusables, porque habiendo conocido a Dios no lo glorificaron como Dios, ni le dieron gracias, sino que se envanecieron en sus razonamientos y su insensato corazón fue envuelto de tinieblas. Diciendo ser sabios vinieron a ser necios, y cambiaron la gloria del Dios incorruptible por la reproducción de imágenes que representan al hombre corruptible, aves, cuadrúpedos y reptiles». Y la pena, continúa el texto que es todo centelleo de la ira y justicia divina, fue correspondiente al pecado de una inteligencia vuelta infiel a su misión originaria, y manchada con la idolatría de la materia: «Por esto Dios los abandonó a las concupiscencias de su corazón, a la obscenidad de deshonrar entre ellos sus propios cuerpos, ellos que cambiaron la verdad de Dios por la mentira, y adoraron y dieron culto a la creatura antes que al Creador, el cual sea bendito por los siglos, amen» (Rom 1, 21-25). Y el terrible texto describe la abominación de tales conciencias depravadas por el abandono de la búsqueda del único Dios sapientísimo, espíritu puro, del cual el hombre había participado en sí la chispa viva de la inteligencia y del amor.

Ya desde el principio la filosofía había emprendido resueltamente su camino esencial de volverse al Uno en la renuncia gradual a la realidad material, llevada hasta la inmolación mística de la propia carne y a la renuncia a su continuación en el tiempo mediante la ascesis de la castidad perfecta que es la virginidad. Tales, por ejemplo, fueron los Presocráticos y los Pitagóricos; para ellos, como para Heráclito, el alma era una partícula del fuego divino, eternamente inmortal, la cual por una fatalidad ligada a una culpa antigua había sido encerrada en la cárcel del cuerpo, del cual debía purificarse y liberarse para retornar a la luz en las esferas supernas. Nada más natural, por esto, entre los adeptos de las sectas pitagóricas, que la profesión de la castidad perfecta, un tema que ya había aflorado en los grandes trágicos (por ej. Sófocles en Antígona) y que retornará dilatándose en varias escuelas al inicio de la era cristiana, sobre todo en la herejía encrática. Platonismo y neoplatonismo han tomado aquí la concepción del dualismo y de la oposición entre alma y cuerpo, de la cual surge la evasiva de abandonar este mundo para correr «solos hacia el Solo», como terminan las Enéadas de Plotino. Y no por nada, y a honor supremo de la filosofía, justamente un filósofo musulmán, y aquel más sospechoso de ortodoxia religiosa como Averroes, recomienda en el Comentario a la Física de Aristóteles la castidad perfecta como medio indispensable para avanzar en la vida del espíritu. Por tanto, no sorprende como aún en el Islam, sobre todo bajo el influjo del místico Algazel, haya florecido la ascesis de la virginidad en forma de vida monástica y religiosa del todo afín a la cristiana que por aquellos siglos florecía en Oriente.

* * *

A menudo, en la filosofía moderna el problema moral, a diferencia que en el pensamiento clásico y medieval, pasa a segundo plano y llega a ser por esto más funcional y derivado que constitutivo de la elevación del espíritu para fundarse en su pura autenticidad. Es la deletérea identidad o identificación de pensamiento y ser o de esencia y existencia, afirmada por el principio de inmanencia, que dejará en la sombra el problema de la virginidad. Lo dejará sobre todo toda filosofía colectivista o toda teoría de la «masa», la cual, como hace especialmente el idealismo, ve en el Todo y en la totalidad de muchos el sujeto de la verdad, y reduce al Individuo a un momento suyo transeúnte. Es de notar que ha sido sobre todo Kierkegaard el que mostró la conexión necesaria, en polémica con el idealismo imperante, entre Individuo y Persona delante de Dios, y por esto entre Persona y castidad, entre Cristianismo y celibato, sobre todo entre celibato y la sagrada misión del sacerdote, en una fiera polémica con el Protestantismo.

En esta lucha con la cristiandad mundanizada de su tiempo, que toca los vértices más altos de la exasperación en la última polémica contra el Cristianismo mundanizado de Mynster-Martensen, él (Kierkegaard) había encontrado un aliado en Schopenhauer, que justamente en aquel período de tiempo (1854-55) estaba leyendo. En efecto, el tema de la virginidad y del celibato forma amplia parte del capítulo 48 de la segunda parte del Mundo como voluntad y representación, dedicada a los «Suplementos» de la primera parte de carácter más sistemático. En su pesimismo radical, él (Schopenhauer) se aproxima, no sólo a aquellas filosofías antiguas, sino también a los místicos cristianos como Madame Guyón, Angelo Silesio, el Maestro Eckhart, y por último a la misteriosa Theología deutsch y al propio San Francisco de Asís, que él, con gusto discutible avecina a las vaporosas especulaciones sobre la nada de las religiones orientales, especialmente del Budismo; sin caer en la cuenta que el mismo «Cántico de las creaturas» es la más alta glorificación de la naturaleza como creación de Dios y a gloria de Dios, y por tanto en antítesis con aquella «tendencia anticósmica» que él pone en el fondo de su filosofía. Esto no quita que su elogio del Cristianismo sea sincero y le reconozca en esta materia el primado al Catolicismo, como el mismo Kierkegaard, sobre el protestantismo mundanizado y «…completamente dañado y corrupto por la miserable hegelería: esta escuela de vulgaridad, esta infección de necedad y de ignorancia, esta sofística que daña las cabezas».

En la defensa del celibato cristiano y católico, como exigencia genuina del Evangelio, Schopenhauer trae el testimonio explícito de Stauss, en su Leben Jesu, él nota que todos los Padres, empeñados en la lucha contra los encráticos que condenaban el matrimonio, exaltan la virginidad, y consideran al matrimonio como una concesión contra la concupiscencia derivada del pecado original. Y se complace en citar la siguiente declaración del católico racionalista Carové (Sobre la ley del celibato, 1832), contrario al celibato: «Siguiendo la opinión de la Iglesia, como se lee en los Padres de la Iglesia, en las instrucciones sinodales y papales y en innumerables escritos de fieles católicos, la castidad permanente es llamada una virtud divina, celeste, angélica, y la adquisición de la gracia divina es hecha depender de la seria invocación de ella». Esta doctrina agustiniana ha tenido la aprobación, continúa Schopenhauer, del Concilio de Trento, ha sido defendida por San Pedro Canisio, y permanece constante hasta hoy; y cita la revista El Católico (junio 1831) en la cual se dice: «En el catolicismo se ve la observancia de una “eterna castidad”, por voluntad de Dios como el más alto mérito del hombre…». El Concilio Tridentino ha removido sobre esto toda duda posible. Importante es el comentario que goza de la completa aprobación de nuestro filósofo: «Por tanto, debe ser admitido por toda persona sin prejuicio, no sólo que la doctrina expresa de los católicos es realmente católica, sino también que las demostraciones adoptadas deben ser inconfutables para una razón católica, porque tales razones han sido sacadas de las concepciones fundamentales de la iglesia sobre la vida y su destino». Y aprueba, junto al abad Zacarías, citado por la revista católica, que el celibato (y no la «ley» del celibato) deriva directamente de la doctrina de Cristo y del apóstol Pablo.

Observa Schopenhauer, también de acuerdo en esto con Kierkegaard, que los ataques contra el celibato provienen de una concepcion del Cristianismo de tendencia judaizante, antiascética, optimista y terrena. Y aquí está también el error del Protestantismo. En efecto «…el protestantismo, eliminando la ascésis y su punto central, que es la meritoriedad del celibato, ya ha rechazado el nucleo esencial más íntimo del cristianismo, y por esto debe ser considerado como un alejamiento del mismo». Esto, comenta con ironía, se ha verificado en nuestros días con su gradual descenso al bajo racionalismo, este moderno pelagianismo, el cual al fin desemboca en una doctrina de un padre amoroso que ha hecho el mundo para que todo surga de él del mejor modo… Esta puede ser, concluye correspondientemente a la suerte de Kierkegaard que se atrajo la ira colegial de los pastores de Dinamarca, una buena religión para los cómodos, ayuntados, y esclarecidos pastores protestantes, pero no es cristianismo. De aquí la crítica a Lutero y la exaltación del estado monástico.

En su pesimismo, como se sabe, Schopenhauer va más allá, y afirma que en y mediante la castidad perfecta, el hombre llega a destruir en sí aquella avidez de vivir que es el pecado, o más bien, la pecaminosidad de la existencia misma; y esta no es por cierto la doctrina del Cristianismo. Pero es sintomática esta su defensa ardiente de la virginidad como medio y condición para el florecer del espíritu en su aspiración esencial de arrojarse en Dios.

(1967)

[Publicado en Momenti dello Spirito, vol. II, Assisi 1983, 366-369].

Fonte: Santo Tomas de Aquino (http://santotomasdeaquino.verboencarnado.net/castidad-virginidad-y-filosofia-por-cornelio-fabro/)

A plenitude inicial de graças em Maria - Reginald Garrigou-Lagrange O.P.

Para começar o blog, eu não podia deixar de publicar este artigo, como homenagem de Amor filial à Minha Mãe, Maria Imaculada.
Sejam sempre louvados Jesus e Maria!


***
A plenitude inicial de graças em Maria - Reginald Garrigou-Lagrange O.P.

A graça habitual que recebeu a bem-aventurada Virgem Maria no instante mesmo da criação de sua santa alma foi uma plenitude, na qual já se verificava aquilo que viria dizer o anjo no dia da Anunciação: « Ave Maria, cheia de graça ». É o que afirma, com a tradição, Pio IX, ao definir o dogma da Imaculada Conceição.

Ele diz mesmo que Deus, desde o primeiro instante, « de preferência a qualquer outra criatura (prae creaturis universis), fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que a todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade »1.

Perfeição desta plenitude inicial

Poderíamos citar aqui, sobre este ponto, inúmeros testemunhos da tradição2 Cf. Terrien, La Mère de Dieu, t. II, 1, VII, pags. 191-234. – De la Broise, S. J., La Sainte Vierge, cap. II e XII, e Dict. Apol., art. Marie, col. 207, ss. . Insistiremos sobretudo sobre as razões teológicas comumente invocadas pelos Padres e teólogos.

Santo Tomás3 explica a razão desta plenitude inicial de graças, quando diz: « quanto mais nos aproximamos de um princípio (de verdade e de vida), mais participamos de seus efeitos. É por isso que Denis afirma (De cœlesti hierarchia, cap. 4) que os anjos, que estão mais pertos de Deus que os homens, participam bem mais de seus favores. Ora, Cristo é o princípio da vida da graça; como Deus, é causa principal da graça e, como homem (após a ter merecido para nós), no-la transmite, pois sua humanidade é como um instrumento sempre unido à divindade: « a graça e a verdade nos vieram por meio dele » (Jo 1, 17). A bem-aventurada Virgem Maria, estando mais próxima de Cristo do que qualquer outra pessoa, uma vez que Cristo recebeu dela sua humanidade, recebeu dele, portanto, uma plenitude de graças que ultrapassa a das outras criaturas ».

S. João Batista e Jeremias foram também, como testemunha a Escritura, santificados no seio de suas mães, mas não foram preservados do pecado original; Maria, desde o primeiro instante, recebeu a graça santificante a um grau muito superior ao deles, com o especial privilégio de ser preservada para sempre de todo pecado, mesmo venial, o que não se afirma de nenhum santo4.

Na sua explicação da Ave Maria5, santo Tomás descreve a plenitude de graça em Maria (o que já se verifica na plenitude inicial), da seguinte maneira:

Enquanto que os anjos não manifestam respeito pelos homens, uma vez que lhes são superiores, como espíritos puros e por viverem sobrenaturalmente na santa familiaridade de Deus, o arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, mostra-se cheio de respeito e veneração por ela, pois compreendeu que ela o ultrapassava pela plenitude da graça, pela intimidade divina com o Altíssimo e por uma perfeita pureza.

Com efeito, ela tinha recebido a plenitude de graça à um tríplice ponto de vista: para evitar todo pecado, por menor que fosse, e praticar de modo eminente todas as virtudes; para que esta plenitude transbordasse de sua alma sobre seu corpo e para que ela concebesse o Filho de Deus feito homem; para que esta plenitude transbordasse também de sua alma sobre todos os homens6e nos ajudasse na prática de todas as virtudes. 

Ademais, ela ultrapassava os anjos por sua santa familiaridade com o Altíssimo; por isso, o arcanjo Gabriel disse ao saudá-la: «O Senhor é convosco », como se dissesse: sois mais íntima de Deus do que eu, pois Ele se tornará seu Filho, enquanto que não passo de seu servidor. De fato, como Mãe de Deus, Maria tem uma intimidade maior do que os anjos com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Enfim, ela ultrapassava os anjos por sua pureza, mesmo sendo estes últimos puros espíritos, pois ela não era somente puríssima em si mesma, mas já transmitia pureza aos outros. Não somente estava isenta do pecado original7 e de todo pecado, quer mortal, quer venial, mas também da maldição devida ao pecado: « darás à luz com dor… e retornarás ao pó » (Gn 3, 16, 19). Ela conceberá o Filho de Deus sem perder a virgindade, ela o carregará em seu seio num santo recolhimento, dará à luz na alegria, será preservada da corrupção do sepulcro e associada pela Assunção à Ascensão do Salvador.  

Ela já é bendita entre todas as mulheres, posto que só ela, com seu Filho e por Ele, levantará a maldição que pesava sobre a raça humana, e nos trará a benção abrindo-nos as portas do céu. É por isso que é chamada Estrela do mar, pois dirige os cristãos ao porto da eternidade. 

O anjo lhe dirá, « bendito o fruto de vosso ventre ». Com efeito, enquanto o pecador procura, naquilo que deseja, o que não pode encontrar, o justo encontra tudo no que deseja de modo santo. Desde esse ponto de vista, o fruto do ventre de Maria será três vezes bendito.

Eva desejou o fruto proibido para ter « a ciência do bem e do mal » e saber viver só, sem a necessidade de obedecer; ela foi seduzida pela mentira: « sereis como deuses »; e longe de tornar-se semelhante à Deus, afastou-se e desviou-se dele. Ao contrário, Maria encontrou tudo no fruto bendito de seu ventre; nele, encontrou o próprio Deus e faz com que o encontremos.

Eva, cedendo a tentação, cobiçou o deleite e encontrou a dor. Ao contrário, Maria encontrou e nos leva a encontrar a alegria e a salvação em seu divino Filho.

Enfim, o fruto desejado por Eva não tinha senão uma beleza sensível, enquanto que o fruto do ventre de Maria é o esplendor da glória espiritual e eterna do Pai. A Virgem, ela mesma, é bendita; porém, mais ainda o é seu Filho, que à todos homens leva a salvação e a bem-aventurança. 

Assim fala Santo Tomás da plenitude de graça em Maria em seu Comentário da Ave Maria; ele tem em mente sobretudo a plenitude realizada no dia da Anunciação, mas isto também já se aplica, em certa medida, à plenitude inicial, assim como aquilo que se diz do rio, se aplica à fonte do qual procede. 

Comparação da graça inicial de Maria à dos santos 

Questionou-se se a graça inicial de Maria foi maior que a graça final de qualquer anjo ou homem, e mesmo se foi maior que agraça final de todos os anjos e santos juntos. Esta questão foi levantada não à respeito da graça consumada no céu, mas daquela que precede imediatamente a entrada no céu8.

À primeira parte desta questão, os teólogos respondem comumente de modo afirmativo; é particularmente a opinião de S. João Damasceno9, de Suarez10, de Justin de Miéchow, O.P.11, de Ch. Veja12, de Contenson13, de Santo Afonso14, do Pe.Terrien15, Godts, Hugon, Merkelbach etc.

Hoje, todas as obras de Mariologia são unânimes sobre este ponto e consideram a coisa como certa; isto é mesmo expresso por Pio IX na Bula Ineffabilis Deus, na passagem que acima citamos.

A razão principal é tomada da Maternidade divina, motivo de todos os privilégios de Maria, e esta razão se apresenta sob dois aspectos, conforme consideremos o fim ao qual foi nela ordenada a primeira graça ou o amor divino que foi causa desta graça. 

A primeira graça foi, com efeito, concedida a Maria como uma digna preparação à maternidade divina, ou para prepará-la para ser a digna Mãe do Salvador, cf. Santo Tomás (q. 27, a. 5, ad 2). Ora, a graça, mesmo consumada, dos outros santos, não será ainda uma digna preparação à maternidade divina, que pertence à ordem hipostática, ou da união ao Verbo. Portanto, a primeira graça em Maria já ultrapassa a graça consumada dos outros santos. 

Do mesmo modo, piedosos autores exprimem esta verdade aplicando esta palavra do Salmo 86: « Fundamenta ejus in montibus sanctis » e eles a entendem assim: o cume da perfeição dos outros santos não é ainda o início da santidade de Maria. 

Esta mesma razão nos aparece sob um outro aspecto se consideramos o amor incriado de Deus pela Santa Virgem: como a graça é o efeito do amor, ato de Deus que nos torna amáveis à seus olhos, tais como filhos adotivos, recebe-se a graça tanto mais abundantemente quanto mais se é amado por Deus. Ora, Maria, desde o primeiro instante, em sua qualidade de futura Mãe de Deus, foi mais amada que qualquer outro santo, mesmo chegado ao fim de sua vida, e mais que qualquer anjo. Ela, portanto, recebeu, desde o primeiro instante, uma graça superior.

Disso não há nenhuma dúvida e não mais se discute hoje em dia. 

A primeira graça em Maria foi superior à graça final de todos os santos e anjos juntos? 

Alguns teólogos o negaram, tanto entre os antigos como entre os modernos16

No entanto, é ao menos muito provável, senão certo17, segundo a grande maioria dos teólogos, de modo que deve-se responder afirmativamente com Ch. Vega, Contenson, santo Afonso, Godts, Monsabré, Tanquerey, Billot, Sinibaldi, Hugon, L. Janssens, Merkelbach etc.

Antes de mais nada, há um argumento de autoridade.

Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, favorece manifestamente esta doutrina, quando diz, na passagem já citada: « Deus ab initio,… Unigenito Filio suo Matrem… elegit atque ordinavit, tantoque prae creaturis universis est prosecutus amore, ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit. Quapropter, illam longe ante omnes angelicos Spiritus, cunctosque sanctos caelestium omnium charismatum copia de thesauro Divinitatis deprompta ita mirifice cumulavit, ut… eam innocentiae et sanctitatis plenitudinem prae se ferret, et quae major sub Deo nullatenus intelligitur, et quam praeter Deum nemo assequi cogitando potest.»18

Segundo o sentido óbvio, todas estas expressões, especialmente esta: « cunctos sanctos », significam que a graça em Maria, desde o primeiro instante, ao qual se refere o Papa, ultrapassava a de todos os santos juntos; se Pio IX quisesse dizer que a graça em Maria ultrapassava a de qualquer santo, teria escrito « longe ante quemlibet angelum et sanctum » e não « longe ante omnes angelicos spiritus, cunctosque sanctus ». Também não teria dito que Deus a amou mais que a todas as criaturas « prae creaturis universis » e que foi nela que mais se deleitou, « ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit ».

Não se pode dizer que não se refira ao primeiro instante, pois Pio IX, imediatamente após a passagem citada, acrescenta: « Decebat omnino ut Beatissima Virgo Maria perfectissimae sanctitatis splendoribus semper ornata fulgeret ».

Um pouco mais adiante, na mesma bula, diz o Papa que, segundo os Padres da Igreja, Maria é superior pela graça aos querubins, aos serafins e à toda a milícia angélica « omni exercitu angelorum », ou seja, à todos os anjos juntos. Quanto a isso, todos concordam se se trata de Maria no céu, mas é preciso lembrar que o grau de glória celeste é proporcional ao grau de caridade no momento da morte e que este em Maria era, ele próprio, proporcional à dignidade de Mãe de Deus, à qual a Santa Virgem foi preparada desde o primeiro instante.

A este argumento de autoridade, tirado da bula Ineffabilis Deus, é necessário acrescentar duas razões teológicas que precisam aquelas que expusemos um pouco acima e que derivam da maternidade divina, conforme consideremos o fim ao qual foi ordenado a primeira graça ou o amor incriado, que foi sua causa.

Para bem compreender estas duas razões teológicas, é preciso, antes de mais nada, notar que, ainda que pertença a graça à ordem da qualidade e não à da quantidade, do fato de que a plenitude inicial em Maria ultrapasse a graça consumada do maior dos santos, não é imediatamente evidente para todos que ultrapasse a graça de todos os santos reunidos. A visão da águia, como qualidade ou potência, ultrapassa a do homem que tiver os melhores olhos, mas ela não lhe permite, entretanto, ver o que vêem o conjunto dos homens espalhados pela superfície da terra. É verdade que entra aqui uma questão de quantidade ou de extensão e distância, o que não acontece quando se trata de uma pura qualidade imaterial. Convém, contudo, acrescentar aqui um novo esclarecimento; e este esclarecimento pode conduzir não apenas à uma probabilidade, mas à certeza.

1o. A primeira graça, em Maria, posto que a preparava para ser a digna Mãe de Deus, devia já ser proporcionada, ao menos de modo distante, à maternidade divina. Ora, a graça final de todos os santos, mesmo tomados juntos, ainda não é proporcionada à dignidade da Mãe de Deus, que é de ordem hipostática, como nós já vimos. Portanto, a graça final de todos os santos juntos é inferior à primeira graça recebida por Maria.

Este argumento parece em si mesmo certo, ainda que alguns teólogos não tenham compreendido todo seu alcance.

Objetou-se: a primeira graça em Maria ainda não é uma preparação próxima à maternidade divina; logo, a prova não é conclusiva. 

Muitos teólogos responderam: ainda que a primeira graça em Maria não seja uma preparação próxima à maternidade divina, ela é, contudo, uma preparação digna e proporcionada, conforme a expressão de santo Tomás, IIIa, q. 27, a. 5 ad 2m: « prima quidem (perfectio gratiae) quasi dispositiva, per quam B. Maria Virgo reddebatur idonea ad hoc quod esset mater Christi ». Ora, a graça consumada de todos os santos juntos não é ainda proporcionada à maternidade divina, que é um privilégio único no mundo e de ordem hipostática. A prova conserva, portanto, seu valor. 

2° A pessoa que é mais amada por Deus que todas as criaturas juntas, recebe uma graça maior do que recebem todas as criaturas juntas, pois a graça é efeito do amor incriado e lhe é proporcionada. Como diz S. Tomás, Ia. q. 20, a. 4: « Deus ama mais este que aquele, na medida em que quer para este um bem superior, pois a vontade divina é a causa do bem que existe nas criaturas. » Ora, desde toda eternidade, Deus amou Maria mais que todas criaturas juntas, como aquela que devia preparar desde o primeiro instante de sua conceição para ser a digna Mãe do Salvador. Conforme a expressão de Bossuet: « Ele sempre amou Maria como mãe, e a considerou como tal desde o primeiro momento em que foi concebida ».

Isso não exclui, por outro lado, o progresso de santidade ou o crescimento da graça em Maria, pois esta, sendo uma participação da natureza divina, pode sempre aumentar e prossegue sempre finita; mesmo a plenitude final de graça em Maria é limitado, ainda que transborde sobre todas as almas.

À estas duas razões teológicas relativas à maternidade divina, acrescenta-se uma importante confirmação que aparecera mais e mais ao se falar da mediação universal de Maria. Ela podia, com efeito, desde aqui em baixo e desde que pode merecer e rogar, mais obter por seus méritos e suas orações que todos os santos juntos, pois eles nada obtém sem a mediação universal da Santa Virgem, que é como o aqueduto das graças ou, no corpo místico, como o pescoço pelo qual os membros se unem à cabeça. Resumindo, Maria, desde que pode merecer e rogar, podia, sem os santos, obter mais que todos os santos juntos sem ela. Ora, o grau do mérito corresponde ao grau da caridade e da graça santificante. Maria, portanto, recebeu desde o início de sua vida um grau de graça superior àquele que possuíam todos os santos e anjos juntos, imediatamente antes de sua entrada no céu.

Há outras confirmações indiretas ou analogias mais ou menos distantes: uma pedra preciosa, como o diamante, vale mais que um monte de outras pedras reunidas. Do mesmo modo, na ordem espiritual, um santo como o Cura d'Ars conseguia mais com suas orações e méritos que todos seus paroquianos juntos. Um fundador de ordem, como São Bento, por si só, pela graça divina que recebeu para sua obra, vale mais que todos seus primeiros companheiros, pois todos reunidos não poderiam ter criado a ordem que ele criou, enquanto que ele teria podido encontrar outros irmãos como aqueles, que o seguiriam. Já se fez ainda outras analogias: a inteligência de um arcanjo ultrapassa a de todos os anjos inferiores a ele em conjunto. O valor intelectual de um Santo Tomás ultrapassa o de todos seus comentadores juntos. O poder de um rei é superior não apenas ao de seu primeiro ministro, mas ao de todos seus ministros em conjunto. 

Se os antigos teólogos não trataram explicitamente desta questão, assim o o foi porque, muito provavelmente, a solução lhes parecesse óbvia. Diziam eles, por exemplo, ao final do tratado da graça, para mostrar a sua dignidade: enquanto que uma moeda de dez francos não vale mais que dez de um franco, uma graça ou uma caridade de dez talentos vale muito mais que dez caridades de um só talento19; é por isso que o demônio procurar manter na mediocridade as almas que, pela vocação sacerdotal ou religiosa, são chamadas para uma vida muito elevada; ele quer impedir o pleno desenvolvimento da caridade, que faria bem muito maior que uma caridade inferior simplesmente multiplicada no seu grau mais comum, que vem acompanhada de tibieza.

É preciso aqui prestar atenção à ordem da pura qualidade imaterial que é aquela da graça santificante. Se a visão da águia não ultrapassa a de todos os homens reunidos, é porque entra aqui uma questão de quantidade ou de distância local, o fato que os homens espalhados em diferentes regiões na superfície da terra podem ver o que a águia, posta sobre um cume dos Alpes, não pode. Ocorre diferentemente na ordem da pura qualidade.

Se isto é verdadeiro, não é de se duvidar que Maria, pela primeira graça que já a dispunha à maternidade divina, valia mais aos olhos de Deus que todos os apóstolos, mártires, confessores e virgens reunidas, que existiram e que hão de existir na Igreja, mais que todas as almas e que todos os anjos criados desde a origem do mundo.

Se a arte humana faz maravilhas de precisão e beleza, o que não pode fazer a arte divina na criatura de sua predileção, da qual se diz: « Elegit eam Deus et præelegit eam » e que foi engrandecida, diz a liturgia, acima de todos os coros dos anjos. A primeira graça recebida por ela foi já uma digna preparação à maternidade divina e à sua glória excepcional, que vem imediatamente abaixo da de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela sofreu, ademais, como ele, à proporção, pois devia ser vítima com ele, para ser também vitoriosa com ele, e por ele.

Estas razões teológicas já nos permitem entrever toda a elevação e a riqueza da plenitude inicial de graças em Maria. Se as obras-primas da literatura clássica, grega, latina ou francesa, contém muito mais beleza do que se imagina numa primeira leitura, quando as lemos entre nossos quinze e vinte anos; se estas belezas não nos aparecem senão quando retomamos a leitura destas obras numa idade um pouco mais avançada; se ocorre igualmente com escritos de um santo Agostinho ou santo Tomás, que pensar das belezas nas obras primas do próprio Deus, naquelas obras compostas imediatamente por ele e, em particular, na obra-prima espiritual, quanto a natureza e quanto a graça, que é a santíssima alma de Maria, Mãe de Deus. Somos, de início, obrigados a afirmar a riqueza da plenitude inicial de graças nela por força de sua beleza entrevista; ocorre, em seguida, de perguntarmo-nos se não vai nisso exagero, se não transformamos uma probabilidade em certeza; finalmente, um estudo aprofundado nos reconduz à primeira afirmação, mas com conhecimento de causa, não mais apenas porque é belo, mais porque é verdadeiro, e porque há conveniências não apenas teóricas, mas que efetivamente motivaram a escolha divina, nas quais se repousou a vontade divina.

(La vie spirituelle n° 253, maio de 1941)



1.Ineffabilis Deus: « Ineffabilis Deus… ab initio et ante sæcula unigenito Filio suo Matrem, ex qua caro factus in beata temporum plenitudine nasceretur elegit atque ordinavit, tantoque prae creaturis universis est prosecutus aurore ; ut in illa una sibi propensissima voluntate complacuerit. Quapropter illam longe ante omnes angelicos Spiritus, cunctosque Sanctos cælestium omnium charismatum copia de thesauro Divinitatis, deprompta ita mirifice cumulavit, ut ipsa ab omni prorsus peccati labe semper libera, ac tota pulchra et perfecta eam innocentia et sanctitatis plenitudinem præ se ferret, qua major sub Deo nullatenus intelligitur, et quam præter Deum nemo assequi cogitando potest ». Deus inefável… Assim Deus, desde o princípio e antes dos séculos, escolheu e pré-ordenou para seu Filho uma Mãe, na qual Ele se encarnaria, e da qual, depois, na feliz plenitude dos tempos, nasceria; e, de preferência a qualquer outra criatura, fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer nela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-a admiravelmente, mais do que todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, ela possui uma tal plenitude de inocência e de santidade, que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender. » [N. da P.] Para a íntegra da Bula:http://www.capela.org.br/Magisterio/Pio%20IX/ineffabilis8dez.htm.
2.IIIa, q. 27, a. 5.
3.IIIa, q. 27, a. 5.
4.Ibidem, a. 6, ad 1m.
5.« Expositio super salutatione angelica », opúsculo escrito cerca de 1272-1273. [N. da P.] Leia a tradução para o português no site da Permanência:www.permanencia.org.br/tomas/Sermoes.pdf
6.Os teólogos dizem comumente hoje em dia que Maria nos mereceu de um mérito de conveniência (de congrue) tudo o que Cristo nos mereceu em estrita justiça (de condigno).
7.Cf. a recente edição crítica do opúsculo de santo Tomás que aqui citamos, edição publicada por J.-F. Rossi, C. M., « S. Thomae Aquinatis Expositio Salutionis Angelicæ » (Divus Thomas, Placentiae, 1931, p. 445-479), lê-se nesse passo no original: « Ipsa enim (beata Virgo) purissima fuit et quantum ad culpam, quia nec originale, nec mortale, nec veniale peccatum incurrit… ». Vê-se por este texto que santo Tomás, no fim de sua vida (1272-1273) voltava a afirmar, como o havia afirmado no primeiro período de sua carreira teológica, que Maria fora preservada do pecado original.« Talis fuit puritas beatæ Virginis, quæ a peccato originali et actuali immunis fuit » (I Sent., Q. 44, q. 1, a. 3, ad 3m). O que havia afirmado inicialmente no arroubo de sua piedade, reafirmava, após um período de hesitação, por um julgamento mais maduro e embasado. Não é incomum, neste tipo de questões, que o teólogo afirme inicialmente um privilégio enxergando apenas sua conveniência, alguma coisa de belo, e, finalmente, o reafirme por compreender sua veracidade. G. J.-M. Vosté, O. P., Commentarius in III P., in q. 27, a. 2, Rome, 2° éd..1940.
8.Os teólogos admitem geralmente que a graça consumada de Maria no céu ultrapassa a glória de todos os santos e anjos reunidos; e que, pelo menos a graça final de Maria, no momento de sua morte, ou mesmo no momento da Encarnação do Verbo, ultrapasse a graça final de todos os santos reunidos no término de suas vidas terrestres. Aqui, nós nos perguntamos se a plenitude inicial de Maria já tinha este valor comparada à graça dos santos. Sabemos, por outro lado, que no que toca os eleitos, o grau de glória corresponde ao grau de graça e de caridade que eles tinham antes da entrada no céu.
9.Orat. De Nativ. Virg. P. G. XCVI, 648, ss.
10.« De Mystiriis vitae Christi », disp. IV, sect. I.
11.« Collat. super Litanias B. Mariæ Virg. », col. 134.
12.« Theologia Mariana », n° 1150 ss.
13.« Theolog. Mentis et cordis », 1, 10, diss. VI, c. 1.
14.« Glorie di Maria », II, P., disc. 2.
15.« La Mère de Dieu », t. 1.
16.Théophile Raynaud, Terrien et Lépicier somente respondem afirmativamente quando se trata da plenitude final de graça em Maria, no fim de sua vida mortal. Outros, como Valentia, consentem se se trata da plenitude de graça da segunda santificação, no momento da Encarnação do Verbo; mas, com santo Afonso, « Li Glorie di Maria », II, disc. 2, p. 1, a grande maioria de teólogos modernos o admitem quanto a plenitude inicial. As duas primeiras afirmações são certas, a terceira, relativa à plenitude inicial, é pelo menos muito provável, como bem o mostra o Pe. Merkelbach. « Mariologia » 1939, p. 178-181.
17.Nós consideramos pessoalmente a coisa como certa, por causa dos princípios que iremos expor ao fim do presente artigo, princípios comumente admitidos pelos antigos teólogos.
18.A tradução deste importante texto foi dada na nota 1, para onde remetemos o leitor.
19.Cf. « Salmanticenses », Cursus theol., de Caritate, disp. V, dub. III, § 7, n° 76, 80, 85, 93, 117.


Fonte: Permanência